Para que serve o arco-íris?

Arco-íris. Há uns anos, no silêncio cinzento de um céu carregado de nuvens a chorar, no meio do mar surgiu um arco-íris. Uma visão fantástica. Duas palavras que marcam unidas por um traço, uma linha, um laço. Eterno. Perguntei-me para que servia o arco-íris? As ondas do mar trouxeram-me a resposta. Perplexo, dissipei as minhas dúvidas.

Já colocaram a vós mesmos a pergunta que dá título a este post? Cada um de nós terá uma resposta única e singular. A minha é esta. Qual é a vossa?

 

    À janela do arco-íris…

A tarde vai longa, tal como o passeio à beira-mar. A espuma das ondas beija-me ternamente os pés, do mesmo modo que as pequenas gotas de chuva, dançando ao sabor de uma suave brisa, me acariciam o rosto. As pequenas ondas vão e vêm com um movimento pendular análogo ao dos sonhos. De súbito, algo me bateu num tornozelo. Olhei e no meio da espuma brilhava uma garrafa. Baixei-me e peguei-lhe. Trazia um papel dentro, com um laço muito original. Tirei-o e comecei a ler.

 “– Dizem que a felicidade é eterna. Deve ser. Eu sou feliz. Há oito anos que estou com o meu marido, os meus pais e a minha irmã. Somos uma família unida e feliz. Curiosa a vida. Passa por nós ou nós é que passamos por ela, sem nos apercebermos que é efémera. Lembro-me bem do início da minha. Com pouco mais de vinte anos, tive uma surpresa. Chegou sem avisar e instalou-se sem pedir licença. Esclerose em placas. Alternava semanas de hospital, com semanas de casa, com semanas de trabalho. A vida pregou-me duas grandes partidas. Eu com as forças que me restavam, escondidas algures na minha alma, assentei-lhe duas grandes vitórias. Lutei muito. A doença era por vezes, mais rápida que eu. Outras mais lenta. Em qualquer dos casos arrasadora. Qual salteador no meio do caminho, atacava por surtos, saqueando os movimentos mais um pouco e depois entrando em pousio, para voltar a atacar pela calada. Vezes sem conta. Por vezes estagnava meses e depois voltava com um novo ímpeto. Passava muitas tardes à espera de consulta. Das duas até às nove. Lembro-me que as consultas tinham duas partes. A minha e a tua. Às vezes a tua demorava mais tempo. Era uma espécie de conversas do género de pai para filho. O médico era uma excelente pessoa. Muito caro, mas bom homem. Assim como um pai em part-time, por alguns minutos. Um tempo curto mas precioso. Lembro-me de uma conversa que tiveste comigo, depois de ires levantar o meu ordenado pela primeira vez, na tesouraria das finanças. 

– Mas como é que pode ser? Uma consulta é quase um quarto do ordenado e às vezes são duas por mês.

 Respondi simplesmente:

 – A minha mãe ajuda sempre que pode.

Eu sei que houve muitos meses, em que tivemos duas conversas com o médico. Uma vez ele disse-me que só tinha outra doente como eu em termos de longevidade. Era um caso raro, mas Deus sabe o que faz e eu tinha uma missão para cumprir. Agradeço-Lhe sempre, pois cumpri a minha missão.

Lembro-me da última vez que fui a Fátima agradecer-lhe. Tinha sido internada, pelo meu sobrinho, que é um excelente médico e me acompanhou durante o internamento. Um dia a enfermeira-chefe, apanhou-te no corredor e chamou-te à parte para te dizer que eu iria partir nessa noite. Perto de mim, viste os meus olhos baços, aquela cor bem definida no meu rosto. Os familiares das minhas colegas de quarto quedaram em silêncio. Tu também. Sem dizer uma palavra, deste meia volta e tomaste o caminho de Fátima. A conversa com Deus decorreu na Capela do Silêncio. Longa. Quase três horas, pausadas por lágrimas e silêncios profundos. Estiveste quase sempre calado. Eu, ouvi tudo e recordei as conversas do género de pai para filho. Regressei de Fátima pelo mesmo meio. No teu coração. Uma semana depois a enfermeira-chefe disse qualquer coisa do género…a sua mãe tem tido uma recuperação espantosa. Tu agradeceste-lhe simplesmente os cuidados excelentes com que me tratavam. Eu sei que também agradeceste a Deus. Como sabes, Ele cuida dos seus frutos e só os colhe quando estão amadurecidos. Colheu-me passados quase dois anos. Temos-te acompanhado, nada temas. Estaremos sempre contigo. Até um dia.”

De repente a chuva engrossou. Tenho de me ir embora da praia. Enrolo a mensagem, volto a colocar-lhe o laço feito de estrelas-do-mar e guardo-a junto ao coração.

– Obrigado. Fica tranquila. Fico feliz por saber que tu, Olga Marília e o Pai estão de novo juntos. Amo-te Mãe. Sei que estás bem, pois continuas a sorrir e a abençoar-me aí da tua janela no centro do arco-íris. 

Um abraço especial, daqueles abraços coração com coração.

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Tudo o que todos queremos…

Apesar do frio, do peso do céu, da espuma dos sonhos, do mar salgado, tudo o que todos queremos que se concretize está aqui.

É por isso que acredito em milagres.

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Quando as palavras respiram – II

É Dezembro. Faz frio. O mar está pesado como este céu cinzento. As paredes continuam brancas. As ondas choram. O mar cresceu. É agora um mar de lágrimas. As rochas desfazem-se. Só Tu manténs a espuma dos dias. Só Tu podes mudar a cor do céu.

Ao fim de tanto tempo Concedeste aos homens a sabedoria para descortinarem porque falta a saúde a um menino. Quero agradecer-Te por lhes Teres dado a sabedoria para isso. Obrigado por Teres ouvido as minhas preces.

Eu sei que Colocas cada ser humano, em cada momento no lugar em que deve estar. Sempre foi assim. Aprendi também Contigo que nunca Dás a um ser humano uma cruz maior do que aquela que ele pode suportar. Nestas conversas que temos, sei com uma certeza absoluta que me  Respondes sempre, como mais uma vez o Provaste. Do fundo do coração quero somente pedir-Te só mais uma coisa meu Deus. Uma coisa simples para Ti que também és Pai. Quero pedir-Te um pequeno grande milagre. O da cura. Obrigado por tudo o que me Dás.

Um abraço meu Deus.

Ámen!

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Quando as palavras respiram.

Às vezes não temos palavras para dizer o que queremos, titubeamos sílabas soltas, entremeadas com silêncios ocos. Às vezes ouvimos algures no fundo do coração os ecos frouxos de uma voz interior a ciciar palavras de luta. Às vezes instala-se em nós a desordem agitada dos dias, como se o mesmo vento que impele o mar contra as rochas, nos empurre contra as paredes. Às vezes desistimos, às vezes desfalecemos, às vezes ganhamos, outras perdemos. Contudo, nunca desistimos, nunca ganhamos e nunca perdemos sozinhos.

Alguns rezam, outros choram, outros riem, em ciclos de alternância incerta. É a vida. Está nas mãos de cada um mudar a sua vida, com maior ou menor esforço, contudo às vezes temos de conversar com amigos nos quais depositamos uma confiança absoluta, que sabemos que nos escutam sem pedir nada em troca, mesmo sabendo que esses amigos já sabem tudo o que temos para lhes dizer. Às vezes temos de ser humildes, corajosos até para agradecer.

Há uns anos escrevi esta história, porque as palavras respiram e dão alento. Hoje tive lhe acrescentar umas linhas.

“Boa noite, escrevo-Te aqui da gaveta mais doce do meu coração, onde uma pequena réstia da Tua luz me mantém à tona das águas revoltas. Tenho tanto para Te agradecer que nem sei como fazê-lo. Agradeço-Te as lágrimas onde a Tua luz perpassa, a paz, o silêncio branco das paredes. Agradeço-Te todos os momentos em que Te pedi aquelas coisas simples que contam na vida de um homem e que por razões que só Tu sabes não tive e não tenho. Uma bola a rolar em direcção a um filho, o riso de ambos a ecoar nas árvores de um parque, aqueles minutos de cumplicidade e ternura quando um pai ensina um filho a andar de bicicleta. Agradeço-Te aquele papel estranho da vida. Pai-telefone. E o outro, o de pai. Tu sabes que não basta querer ser bom pai, é preciso saber e é preciso poder sê-lo. E pode-se sê-lo de muitas maneiras. No céu e na terra. A Ti que és Pai, eu quero agradecer os pais que tive e, também, a mãe que o meu filho tem.

Acredito que um dia a Tua luz se derrame qual sol brilhante sobre todos nós, os que estamos cá deste lado. Sabes, na minha simples ingenuidade de mortal, acho que nunca soube falar Contigo, talvez porque não sei pedir nada. Nunca tive jeito para pedir nada para mim. Eu sei que Tu me ouves sempre, tal como fazes com toda a gente. Talvez eu não Te tenha sabido escutar ao longo dos anos. Em vagas sucessivas o mar levou tudo, ou melhor quase tudo. O amor de um filho a um pai e o de um pai a um filho, nunca se afunda. Fraquezas de marinheiro. Não é fácil manusear a bússola que dás a cada homem quando nasce. O norte fica algures no céu, tal como o sul. Não interessa onde. Está lá tal como Tu estás aqui. Tu és o norte e o sul. O este e o oeste. És o meu ponto cardial.

Agradeço-Te por tudo, porque faz tudo parte da vida. Pelas cores do arco-íris que me deste para eu ir pintando os dias, pelos dias em que as soube usar para pintar telas de paz, pelos dias em que as usei ao acaso, insensatamente, pintando telas opacas. Agradeço-Te pelo tempo, em que lutei e tentei. Agradeço-Te os raros dias em que pintaste o céu com o riso do meu filho. Foram minutos que valem anos. Sei meu Deus que quem tem a última palavra és sempre Tu, porque comandas as duas únicas coisas que fazem andar o mundo. Os corações e o tempo.

Já me esquecia, de Te dizer que a minha fé é tão forte como as rochas onde o mar se desfaz lá em baixo, por isso Te suplico que todos os males que me afligem se tornem cinzas nesta fogueira da vida, que o sofrimento que me fustiga arda em labaredas e que ao apagar-se extinga também o ódio, a inveja, a perseguição e traga a paz. A toda a gente sem excepção.
Ámen!

P.S. Do fundo do coração quero somente pedir-Te mais uma coisa. Uma coisa muito simples para Ti, mas pelos vistos um mistério indecifrável para os homens. Não são minutos, horas ou até dias com o meu filho, isso são coisas dos homens, peço-Te apenas do fundo do coração, que lhe concedas o que mais lhe falta. A saúde.
Um abraço meu Deus. Obrigado.”

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Palavras homónimas.

Há palavras simples que às vezes nos surpreendem porque são como as pessoas, podem ter o mesmo nome, mas são completamente diferentes. As palavras homónimas são especiais porque são fios soltos, que com o  tecer dos dias se mudam, se transformam, se reinventam, até que por fim voltam a nascer com outro significado.

Esta história que aqui vos deixo foi escrita há uns anos e tem acoplado no final um pequeno glossário, pois necessitei de usar algumas metáforas, pelo que tive de pedir “emprestados” alguns termos técnicos a um amigo que não conheço, mas que é um especialista do vocabulário próprio da cultura taurina.

Deixo-vos aqui uma palavra homónima, que cresceu e se transformou numa história onde os leitores podem entrar e ser as personagens.

“Nós. Eu e tu. Tu e eu. O dia e a noite. A nuvem e o sol. A água e o fogo. O tudo e o nada. Na arena da vida enredam-se o pó dos dias e a cinza das noites. Resta a memória dos afectos, da luz dos teus olhos, dos longos silêncios entremeados pelo sibilar das lágrimas que o vento leva quais gaivotas. Queda ainda o eco longínquo do teu olhar penetrante perdido nas manchas áureas do tempo. Vagueio pelos interstícios do tempo, ao sabor do cheiro morno e quente da manteiga a derreter num bolo do caco, ou da textura aveludada de uma sopa de peixe do rio, sinto a brisa do mar que carrega o perfume dos teus cabelos, a tua graça e os teus caprichos. Vejo ainda as gaivotas bebés, dando os primeiros passos na corrida da vida, saltitando alegremente na areia, fugindo das carícias das pequenas ondas na maré baixa.

Na corrida da vida entramos todos levantados, soltos, investimos nos outros, raramente em nós, depois vamos parando cansados e ficamos aplomados entre a espada e a parede e, aí pode ser mesmo o último tércio da nossa vida. Muitos tem uma querença natural de não desistir, pegar a vida de cernelha e lutar, lutar, lutar sempre. Tu já foste assim. Eu também. Cansámo-nos os dois de suplicar um ao outro, gestos e palavras de amor. É a vida tal como ela é. Áspera com brandos fios de harmonia. São estes fios delicados que tecem de cores domingueiras os dias felizes, os únicos que contam no inventário da vida.

Não sei se alguns dos fios brancos que salpicam o mar revolto dos meus cabelos foram pintados por ti, ou se alguns dos teus retratam fielmente a neve e o frio que um dia cobriu o teu coração. Não interessa quem ganhou, nem quem perdeu, quando o amor fenece perdemos todos. Perdemos tudo menos a memória. Há pessoas que têm uma memória prodigiosa, contudo nem todas fazem o mesmo uso dela. Umas recordam apenas os bons momentos, mesmo que sejam escassos e esparsos, outras recordam só os maus momentos. Dizem que há uma diferença entre ambas, provavelmente a mesma que existe entre o aconchego de uma lareira e os flocos de neve que beijam a soleira de uma porta, coexistindo e matizando a vida em cores venturosas. Há diferenças indecifráveis, tão subtis como nobres, assim como há convenientes defensores da concórdia e paladinos da paz.

Quem recorda os bons momentos rejuvenesce, regenera o sangue, a cor da pele e o brilho nos olhos, acariciando as sortes da vida em tons ardentes. A vida é composta de simbioses, de tempos, de espaços, de partidas e regressos, de ausências, de solidão e de partilhas. Nem sempre áspera e agreste, nem sempre branda e indulgente. A vida é como o mar, tem marés.

Nos derechazos com que a nossa existência por vezes nos brinda, nem todas as estocadas são nefastas. Na majestosa tela da nossa existência há sempre cores vivas e intensas, umas vezes de sangue, outras de rosas rubras, coabitando com os tons azuis do céu e os brancos da paz. É por isso que num dia qualquer de Julho pode cair o rigor do Inverno mais frio e intenso, ou então o Natal ser um dia de radiosa Primavera, sob o calor tórrido dos corações.

A vida mimoseia-nos todos os dias com todas as cores do arco-íris, contudo esquecemo-nos sempre disso, somos cegos sem em contrapartida termos outro qualquer sentido super-apurado. Perdemo-nos de nós mesmos e depois procuramos em vão pela nossa alma. E aí estamos sós, sem saber como utilizar a paleta do arco-íris para matizar cada dia com momentos inesquecíveis. Pintamos na maior parte das vezes dias inóspitos e rotineiros, esquecemo-nos de rir dos outros e de nós próprios. Muitos de nós voamos diariamente em piloto automático em direcção a sítio nenhum, sem olhar para o painel de instrumentos da vida, onde piscam milhares de luzes. Tragados pela voracidade dos dias, chegamos a casa e aterramos instintivamente frente a um ecrã que nos come as palavras, os olhares, os gestos, os afectos. O calor da cama decresce na mesma proporção com que as palavras se silenciam, os lençóis outrora engelhados ganham a constância uniforme da goma. Mecanicamente as palavras de boa noite e de bom dia, sucedem-se num ramerrame que lentamente se desgasta na inércia dos dias. E depois a vida torna-se um emaranhado onde o mutismo é rei, dando a estocada final.

Na geometria da vida os círculos são a face do amor, há contudo umas formas bastante complexas. Nós. Todos somos gente que ama, sofre, ata e às vezes desata aquilo que há entre nós. A pergunta natural que colocamos na vida é sempre a mesma.

– E o que é que há entre nós? – A resposta é só uma e vem sempre na brisa do mar.

– Nós.

Que Deus reparta sorte!

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P.S. Glossário de palavras retiradas da arte da tauromaquia:

Que Deus reparta sorte! – Os toureiros, quando entram na arena dizem, uns para os outros: “Que Deus reparta sorte!”.

Aplomados – um dos estados do toiro na arena. O toiro quando entra na arena está no estado de “levantado”, porque sai solto e atropela tudo na investida; quando começa a ficar cansado, passa ao estado de “parado”e é nesse estado que se fazem a maior parte das sortes de toureio, quando investe já com dificuldade está no estado de “aplomado”.

Tércio – Tércio é a palavra aportuguesada do termo espanhol tercio e se refere a cada uma das seguintes partes da lide:

  • Primeiro tércio: o toureio de capote e a sorte de varas.
  • Segundo tércio: a sorte de bandarilhas
  • Último tércio: o toureio de muleta e a estocada

Derechazos – Passe executado pelo toureiro com a muleta, que é dado com a mão direita mas nesse caso a flanela da muleta está mais aberta porque tem o auxílio do estoque que aumenta a largura da muleta.

 

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O poder de decompor palavras.

O poder de decompor palavras.

Há palavras que foneticamente são difíceis de distinguir. Contudo as palavras têm vida própria de per si e também têm vida própria decompostas.

Não sei se conhecem o seguinte provérbio hindu:

“Quando falares procura que as tuas palavras sejam melhores que o silêncio.”

Quando escrevo é isso que procuro, que as minhas palavras sejam melhores que o silêncio. Nem sempre o consigo. Talvez o silêncio seja incómodo, talvez marque como as palavras. Há palavras com sentido, tal como o silêncio pode ter sentido também.

Aprendi contudo que o silêncio me proprociona momentos mágicos. É uma forma de comunicação poderosa comigo mesmo e às vezes também com os outros. É em silêncio que se tomam as decisões mais importantes da vida, porque é no silêncio que se escuta a voz interior que cada um tem em si mesmo. Do silêncio nasce a paz e desta surgem todas as melhores actividades e acções do ser humano.

Conheço bem o murmúrio do mar que se escuta no silêncio da contemplação. Às vezes, é aí que brotam as histórias que escrevo, tal como esta nasceu quase há quatro anos, nasceu apenas de uma palavra e da sua decomposição em duas. Ambas marcam.

Espero que esta história vos possa ser útil.

“Adeus. Fim. Ponto final. Adeus. Desde que me conheço como gente, usei esta palavra, duas vezes. Custa dizer adeus a amigos vintage. Cada vez que a pronuncio dá-me uma dor aguda no peito. Morre um bocado de mim. Hoje morro mais um pouco. Lentamente, o coração encolhe, o peito aperta, a pequena gaveta do esquecimento abre-se, o espaço exíguo ainda livre fica mais pequeno, entrando em turbilhão de uma só vez a voz, as memórias, as histórias, as palavras e os silêncios, as gargalhadas, as noites de petiscos, os magustos, os sorrisos, as confissões, tudo transformado numa dança de nuvens negras geradas por um abalo que nos apanha de surpresa, qual maremoto. Em cinco segundos a gaveta fecha-se num movimento instintivo e automático de caixa registadora das brumas da memória. Ninguém é perfeito. Merda de vida.

Não sei como fiquei assim. Não sei se toda a gente tem uma gaveta do esquecimento num cantinho qualquer do coração. Eu tenho. Até tenho duas, mas só uma é do esquecimento. A outra tem um nome estranho, com as marés negras da vida, para não morrer, qual náufrago, passei-lhe ao lado até que lhe aprendi o nome. A gaveta do amor.

Talvez tenha demorado muitos anos a descobri-las. A primeira, a do esquecimento, não demorei trinta segundos a aprender como se usa. Sem mágoas, sem hesitações, sem emoções. A outra, a gaveta do amor, tenho umas leves noções de como se deve usar. É muito mais difícil de usar, leva anos a aprender, às vezes uma vida, até há quem aprenda a usar a gaveta do amor nos últimos dias antes de partir rumo ao país que fica além do tempo e do espaço. O país da luz e não de trevas como alguns lhe chamam. Outros zarpam do mar da vida tão de repente que nem têm tempo para conhecer o amor.

Como em tudo na vida é preciso treino e existem regras. É preciso treinar a felicidade e para aprender a usar a gaveta do amor, só conheço uma regra, contudo deve haver mais, talvez um dia aprenda as restantes. A regra é tão simples e simultaneamente tão difícil. A melhor forma de receber amor é dá-lo. Elementar, dizes tu. Um ovo de Colombo. Sim. Depois de se conhecer a regra é simples, ou pelo menos devia sê-lo, mas a ondulação da vida, os golpes de vento, dificultam o seu uso. Além disso, existem pessoas que não gostam de regras. Não é por serem rebeldes. Nada disso. São gente de carne e osso como tu e eu, gaivotas solitárias apenas. Só isso. Nada mais.

Daqui do promontório, revejo o teu rosto, ora desenhado pela espuma no azul esverdeado do mar, ora nas asas de uma gaivota. Estás nas águas e no céu. Na chuva e no sol. Nadas e voas. Estás no marulhar rouco lá em baixo, no assobio do vento norte. Nos elementos. Nas gotas brancas que tentam desesperadamente subir a escarpa agarrando-se à nudez dos penedos, como um alpinista se agarra à linha de vida. Sabes nem todos os alpinistas conseguem subir o Evereste, uns ficam pelo caminho. Todos passam pelas mesmas dificuldades, a diferença está no modo como reagem às mesmas. Por isso alguns içam a bandeira e outros não. Ficam lá para sempre. É a diferença entre a vida e a morte.

Provavelmente o meu coração tem mais gavetas. Não sei. Também não sabia que tinha estas. Há tanta coisa que eu não sei e que gostava de saber. Tenho um método. Todos temos. O meu é simples. Embrenhar-me na floresta, conduzindo sem destino. A janela aberta, deixando entrar o cheiro dos pinheiros, o canto dos pássaros, o amarelo das mimosas e das acácias no tempo delas. O ar puro inunda-me o peito, o espírito e, por vezes, o coração. Regresso mais leve ao ponto de partida. Nem sempre resulta.

Hoje nada resulta, deixo-me ir qual ser errante, vagueando pela estrada, os pensamentos desabitam-me, sinto-me vazio, o volante conduz-me pelas sombras difusas da floresta, ando quilómetros, curvas e mais curvas, de súbito uma travagem brusca. Um miúdo vindo de lado nenhum atravessa a estrada. Sorte. Paralisei novamente. Estaco.

Olho-me ao espelho, a cor retoma vagarosamente o caminho do meu rosto. Tomo uma decisão, a única que me pode salvar. Arranco e dez minutos depois paro. Saio do carro e com o coração nas mãos, subo as escadas, empurro a porta. Pesada como a vida. Entro, avanço um pouco. Há muitos, muitos anos que não entro num lugar assim. Envolto na penumbra, vislumbro uma luz. Sento-me. As palavras não saem, a voz embarga-se. O silêncio percorre a conversa. Um amigo vintage. Alguém me disse um dia, quando já tudo nos aconteceu e pensamos que estamos perdidos, podemos sempre pedir ajuda. Na minha ignorância perguntei a quem. A resposta veio com um brilho nos olhos.

– A Deus.”

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A tua marca…

Na vida de qualquer ser humano, quase toda a gente pode dizer de viva voz palavras tão simples como um nome por exemplo. Contudo há nomes que nem sempre é possível pronunciar pelas mais variadas razões.

Como já vos disse no primeiro post deste blogue, as palavras deixam marcas. Os nomes próprios são contudo uma categoria de palavras especiais, com uma propriedade ímpar e exclusiva, deixam uma marca de per si, sem precisarem de mais nenhuma palavra a acompanhá-los.

Não sei quanto tempo, é que vós, os que têm a bondade de ler “O marca das palavras”, costumam demorar para escrever uma carta, creio contudo que será apenas uma questão de prática. Eu nunca tive muito tempo para escrever cartas, por isso não sou versado nessa arte. Esta que aqui vos deixo, demorei uns milhares de dias para a escrever. Assim que a escrevi, enviei-a de imediato e sei que chegou ao destino pois tive resposta. Deixo-vos com uma carta enviada de um lugar que demorei muito tempo a descobrir, (mas que todos nós podemos descobrir)  para um destino ainda mais especial…

“Baixei-me, apanhei um punhado de areia. Areia, branca e fina, como a minha memória sobre ti. Subi para o barco, abri a mão e o vento levou os finos grãos de areia que continham a memória dos dias que passámos juntos. Peguei nos remos e iniciei a viagem que me trouxe até esta ilha. Cheguei hoje. Demorei mais de dezasseis mil e trezentos dias. Valeu a pena, esta longa e dura viagem para te poder dizer o que te quero dizer. Um dia, não sei quando, hei-de dizer-to face a face. Hoje mando-to por esta via…

Nesta longa jornada, como bem sabes, porque me tens acompanhado sempre, as tormentas foram muitas. Umas atrás das outras. Dias de bonança, também, salpicados aqui e ali por tempos de um sol radioso e pelo mar azul da paz.

O Zé contou-me muitas histórias de caça e da vossa amizade. A do Perry, o teu cão que lhe salvou a vida naquela madrugada em que o levou para a caça e tu não pudeste ir. Um acidente. Um tiro. Dois dedos. A menos. O sangue a jorrar sem parar, longe do mundo e de todos. Valeu-lhe o Perry, que foi buscar ajuda a tua casa. A mais de nove quilómetros de distância. Valente o cão. Valente o Zé. Contou-me de ti, dele, dos tempos de tropa em Cascais. Dos tempos longínquos da juventude. Dos teus primeiros tempos de casado. Histórias, que só agora conheci. De como lhe dizias:

– Ó Zé, tu querias era ter um assim.

Bons tempos com certeza. Sabes, o Zé casou, já deve ter quase uns cinquenta anos de casado. Nunca teve filhos. Dei-lhe um abraço sentido. As lágrimas, primeiro, vieram-lhe à tona dos olhos. Aos dois. Depois saíram como uma chuva de Inverno na praia. Grossas. Era a vida a transpirar gotas de suor, genuínas, cristalinas, daquelas que reflectem o brilho da alma.

Sei que tentaste falar comigo muitas vezes. Por qualquer tipo de problema de comunicação nesta rede complexa que é o mundo, nunca consegui apanhar o que me querias dizer. Foi preciso um tsunami para o perceber. Entendi tudo. Agradeço-te a ajuda. Estavas lá, sem ninguém perceber como, ajudaste-me a enfrentar a enorme onda. Estranhas coincidências. Estiveste sempre ao meu lado e eu nunca o tinha percebido. Obrigado.

Houve uma pessoa que me disse para confiar em ti, que tu ias ser uma grande ajuda. E foste. Foste fundamental para eu chegar ao meu destino. Fazes mais na tua ausência do que muitos outros estando presentes. A vida tem processos estranhos. Transcorre em viagens entre o passado e o futuro, que nos colocam exactamente no local em que devemos estar em cada momento. No presente. É, estranhamente, um mecanismo fácil e simples. Sabes, é Deus a agir, como só Ele o sabe fazer, escrevendo direito por linhas tortas.

Hoje a minha memória sobre ti, ganhou cor, deixou de ser branca e ficou com um leve tom azulado. Quero terminar dizendo-te duas coisas que nunca te pude dizer, pois partiste muito antes de eu gatinhar. Duas coisas simples, tão simples como o mundo, apesar de nós termos uma habilidade inata para o tornarmos complexo. Sabes, aprendi a dar valor às coisas simples da vida. Exactamente essas, aquelas que contam na vida de um homem. Quero, apenas, dizer o teu nome, Raúl e que te amo Pai.

Sei que vais receber esta carta amanhã, pois terminei a minha viagem, cheguei a esta ilha. O destino trouxe-me aqui apenas por uma razão, é o único local do mundo que tem correio para o céu. Correio Azul.“

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