Horizonte.


Provavelmente já leram o poema “The Dash”  de Linda Ellis. O poema pode ser visto aqui e fala sobre uma linha que une dois pontos na vida de uma pessoa. O princípio e o fim. Cada um de nós conhece apenas o ponto de partida desta linha imaginária.

Há uns anos publiquei este texto na internet. Fala também sobre uma linha que me fascina não só a mim, como a muitos de nós.


“Quatro e quarenta e quatro. O som do silêncio pesa no quarto. Os pássaros, tal como os pinheiros, dormem na penumbra. Abro a janela e recebo o abraço l ongínquo e doce da lua. Estranho o vazio de onde se erguem vindos algures da memória dos dias, abraços fantasmas.

Olho o céu pejado de estrelas. Algures escondida deve estar a minha estrela guia. Algumas estrelas cintilam, outras cadentes somem-se nas trevas que engolem a noite. Mergulho no céu à procura do futuro. Percorro a Via Láctea na amplidão do pensamento. Ágil, palmilho os anéis de Saturno, perco-me em círculos. Procuro-te. Em vão. Fugiste nas asas do tempo, num vôo que não permitia passageiros. Só teu. Pego na borracha da memória e tento apagar-te. Nunca te disse que sabia usar uma borracha. Aprende-se simplesmente sabes. Aprende-se como se aprende a andar, tenta-se, cai-se, volta-se a tentar, volta-se a cair até que se consegue dar uns passos. Depois é só manter o equilíbrio. Simples não é?

Subitamente ecoa no silêncio da madrugada o arrulhar das rolas. Acordaram também, nunca tinha acordado antes delas. Ao longe o mar beija a praia ternamente, ronronando-lhe segredos dos amores de Verão. Os candeeiros da rua, num ritmo temporizado, ora afagam ora desvanecem as sombras. A cadência da luz que irradiam, nunca é como a da vida. Esta é irregular, intermitente. Por vezes, luz, penumbra, escuridão. Dias, noites, madrugadas. Madrugadas, noites, novamente dias. Rotinas sem duração certa. Morrem todas na inércia dos dias. Sim, as rotinas são feitas para morrer. Se elas não morrerem, matam-nos a nós. É isso não é?

Tomo um duche tépido, visto-me à pressa, abro a porta e embrenho-me nos primeiros raios fugazes que transportam a luz do dia, esfrego os olhos e em passos rápidos perscruto a aurora. Chego à praia ao mesmo tempo que o dia. Abro a alma de par em par e grito:

– Bom dia mar.

A brisa suave leva ao colo o meu grito por cima das ondas. Um bando de gaivotas responde-me em uníssono. Descalço-me e dou os primeiros passos à beira-mar. Aquela hora a praia é só minha. Aproprio-me dela, como se fosse uma manhã de bruma. Progrido lentamente na areia, enterro os pés, o passado, os sonhos gastos e repetidos. Vou andando e cada vez me enterro mais, cada vez mais fundo. A areia fina deu lugar à areia grossa, tal como à infância se sucedem os dias de vida dura. Desperto os sentidos com o primeiro beijo do mar nos meus tornozelos. Doce, terno, indelével.

O sal embrenha-se na pele, a brisa embrenha-se primeiro nos pulmões, depois lentamente espraia-se ao longo da minha alma. Extasiado, esquadrinho o infinito à procura de tudo e de nada. Olho sem ver. Vejo sem olhar. Arrebatado pelo pensamento que voa mais rápido que o olhar, deixo-me ir embalado pelas ondas. Caminho na areia, caminho nas rochas, caminho nas ondas. Não sou capaz de parar. Já não existo. Já não sou eu. A razão foi-se numa onda. Morreu na praia. Só o meu espírito vive e caminha, imponderável, desoprimido, alegre e subtilmente rumo aos sonhos que hei-de realizar. Rumo à linha que hei-de cruzar um dia. A única que conta na vida de um homem. A linha do horizonte…

Parece simples, não parece?

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4 respostas a Horizonte.

  1. Bruno diz:

    Linda partilha.
    É assim mesmo. A vida passa rápido e quando você olhar linha da sua vida, você pode não gostar …
    O que fizemos o que deixamos de fazer, não é mesmo?

    Abraços

  2. Obrigado pelas suas palavras Bruno. É sempre importante o que se deixou de fazer, especialmente porque nunca sabemos quando a vida acaba.
    Abraços

  3. gina diz:

    quando cruzares a linha do horizonte ela deixa de o ser; durante a vida, o que a carateriza é afastar-se de ti na mesma medida em que pretendes aproximar-te. É a velha questão do tempo, de que o futuro é o que nunca é, porque quando lá chegas torna-se presente e há outro futuro por alcançar. Cruzar a linha do horizonte pode ser morrer, deixar de ter futuro. Ou considerar-se como Deus, um eterno presente. que, bem vistas as coisas, é muito parecido a estar morto. Por ser um imutável :) São parecidos, o tudo e o nada.

    agora vou ler o poema que não conhecia :))

    • Cara amiga com nome de escritora,
      Palavras sábias as tuas. Descreves bem melhor que eu a linha do horizonte.
      Nada nem ninguém são imutáveis. Somos tudo e não somos nada. Hoje e sempre.

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