amarcadaspalavras

Entre o ontem e o amanhã…

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As palavras são como as ondas do mar, tem os mesmos ritmos da vida. Esta decorre entre o ontem e o amanhã, num ritmo pessoal e intransmissível. Contudo também as palavras impõem um ritmo próprio às histórias, embalando quem as lê numa cadência que, muitas vezes deixa percepcionar, ou pelo menos dá umas pistas sobre o seu final.

Neste blogue nem sempre o ritmo das palavras desemboca no final que o leitor atento almeja. E isto acontece por uma razão simples, porque há palavras que marcam, como esta história que publiquei há uns anos na internet comprova.

A tecla.

No vagar dos dias chegou Outubro e com ele as primeiras gotas de chuva. A natureza qual amor de Verão, preparava-se para hibernar, seguindo os tons de Vivaldi. O chão da estrada, ganhava os mesmos tons de vermelho do pôr-do-sol, agora mais afectuosos e maviosos. As folhas dançavam num tango desalinhado. Às vezes parecia que o carro ora deslizava a gozar a beleza da estrada, ora tentava apressadamente alinhar aquele rodopio e organizá-lo como se fosse uma valsa de Strauss.

Serpenteando nas curvas da vida, conheceu alguém. Conhecer, é uma força de expressão, pois as pessoas são como livros numa estante. Fechados têm apenas um nome na lombada. Abertos falam por si. Teve um primeiro contacto. Depois outro. Falaram e voltaram a falar. Ela era bem disposta, trajando as palavras com um humor fulminante. Dia após dia, essa mulher espoliava-lhe as defesas que tinha montado. Uma a uma, ruíam as muralhas, entretanto erguidas, contra guerras de outras mulheres, que lhe tinham moldado o coração com uma geometria obtusa. O tempo da conquista fácil e da aritmética básica de uma vida trivial, somando mulheres, tinha passado.

Lentamente, foi percebendo nela crenças, atitudes, valores, que simplesmente já não acreditava existirem numa mulher. Hoje os dias eram de engate e desengate rápido. Dias de plástico. Tudo o que era metal ia morrendo aos poucos e ressuscitava agora sob a forma de artefactos de plástico. Numa cadência acelerada e mortífera, das velhas marmitas aos tuperwares, dos bons sabores da comida caseira, à comida rápida e insípida. As relações entre homens e mulheres eram agora de plástico, frágeis, amorfas. Insubmisso, não perfilhava os tempos.

Paulatinamente, de mansinho, instalou-se primeiro a autenticidade das palavras, depois a confiança, o amor-próprio, a humildade, o respeito. A vida retomou os tons de vermelho do pôr-do-sol, afectuosos e ternos.

Encontraram-se algumas vezes. Acasos circunstanciais e fugazes, até que chegou o tempo do primeiro frente a frente. Uma grande entrevista, com troca constante de papéis entre os intervenientes. Ponteada com sorrisos e gargalhadas. Não, não foi uma batalha. Essas batalhas entre sexos já não tinham sentido para eles. Não sentiu naquele primeiro encontro, qualquer sombra de plástico. Ambos tinham sido somente eles próprios. Autêntica ela. Autêntico ele. Genuínos e fidedignos. Ali não existiam resíduos para reciclar. As únicas coisas passíveis de reciclagem, os divórcios de ambos, já tinham sido recicladas, trituradas e reutilizadas. Era a política dos 3 R’s concretizada na vida real.

Novembro chegou em passo de corrida. Um sábado. Foi ver o rio. O dia brilhava de alegria. Ele, inexplicavelmente, também. Agradeceu aquele novo dia e esperou a vida acontecer. Sentou-se no muro à beira da estrada. Deixou-se inebriar naquela imensidão do vale abraçando a água entre fragas imponentes. Um carro parou. Virou-se. Era ela. Acenou-lhe e viu abrir-se um sorriso celestial, gentil e infinito. Respirou paz. Ergueu-se e convidou-a a dar um passeio. O caminho, qual afluente, expirava nos braços do rio.

O Douro testemunhou o primeiro beijo, quente e voluptuoso. Um abraço forte e delicado ao mesmo tempo. Um abraço de paz. Uma boca sensual, beijos longos. Corpos espelhados no rio. O silêncio. Outras testemunhas, sem convite, assistiam. Só ele as viu. Duas águias-reais. Voltou a respirar concórdia. Viu raios de alegria no rosto dela. Sentiu-a feliz. Também ele experimentava um clarão de felicidade. Comungou da mesma alegria e da mesma paz. Almoçaram e despediram-se. A filha esperava a mãe, a mãe a filha. Era a vida a funcionar, numa regularidade imperturbável.

Com o passar dos dias, sem pedir licença, a saudade instalou-se, alimentada pela tranquilidade da voz que ouvia de quando em vez. Contudo, outra coisa começava a desbravar caminho nele. A geometria do coração estava de novo à prova. Paz celestial. Sentiu-se especial. Ela era rara e invulgar. Tão rara, como a neve no mês das vindimas. Devagar, também sem pedir permissão, a paixão foi matizando os dias com cores quentes. Contudo a verdade, era mais condizente com uma frase que tinha visto algures. Simples e realista. <<Apaixonamo-nos não pelas pessoas, mas pelo que as pessoas nos fazem sentir>>. E ele sentia-se bem. Bem consigo próprio, bem com os outros e acima de tudo bem com ela.

No fim de semana seguinte, foram tomar um café. A imensidão do vale, convidava a um passeio à beira-rio. Partiram em gargalhadas de azul, do céu. As pegadas polvilhando o caminho. O riso e a alegria, vindos do local mais fundo do coração de ambos, aspergindo o ar. Os olhos dela salpicando a alma dele de tons cor de mel. Os olhos dele impregnando os dela de alegria. O Douro e as águias-reais testemunhando tudo em aprovação solene. Estavam outra vez juntos, em orgasmos de paz. Caminharam de mão dada, atiraram pedras ao rio, trocaram beijos, cumplicidades e fragilidades. Sentiram-se bem nos braços um do outro. Caminhos da vida. Este parecia um caminho tranquilo, harmonioso. Lembrou a canção “Imagine” do Lennon.

Adormecia agora, cansado mas bem disposto. Acordava cheio de alegria e energia. Na fábrica perguntaram-lhe:

– O que é que se passa estás com muito melhor aspecto e sempre com boa disposição?

– É do Outono. O Outono facilita o renascimento.

Ninguém pareceu compreendê-lo e tão pouco lhe importava que o entendessem ou não.

Falaram, voltaram a falar e saíram para um fim de semana, cheio de promessas e vida. Não, não era um de fim de semana de plástico, daqueles em que um homem acrescenta mais uma mulher à sua conta-corrente e uma mulher adiciona mais um homem à sua fantasia. Ambos já não faziam dessas contas. Contas, só mesmo as do mês. Daquelas que se fazem dia após dia, quando o ordenado fica curto para tanto mês. Essas eram as únicas contas que ambos praticavam, numa rotina certa e mensal.

Tiveram um almoço de príncipes. Príncipes sem reino nem castelo, apenas príncipes da vida. Trocaram olhares cúmplices. Segredos. Navegaram nos braços um do outro, percorrendo oceanos de azul celeste. Imploravam-se um ao outro, roídos num desejo até então meio submerso. As mãos dele percorriam suavemente o corpo dela. Silêncios ofegantes. Outra paz. Corpos nus. Luz. Beijou-a longamente. A nuca, depois o pescoço. O céu. Desertos de prazer. Alva e bela como a neve do Marão. Uma Vénus de Milo. Resplandecente. Linda por dentro e por fora. Por dentro, ele já o tinha intuído. Por fora, descobria-o agora. Jantaram, amaram-se com o olhar, com as mãos dadas, com sorrisos, com histórias de vida. Era a vida a correr nos trilhos certos. Subiram ao quarto, enlaçaram-se em orgasmos de luz. A neve fez-se sol. Subiram ao céu. Arderam em labaredas de azul e desceram à terra, adormecendo sob a benção da lua.

A vida decorre entre o ontem e o amanhã. Nunca no passado e nunca no futuro. Um dia de cada vez. Lento. Demorado. Contudo, o tempo transfigura-se. Os minutos são horas. As horas são dias. E os dias sem a ver, eram noites. A claridade dos dias depende de um sorriso cúmplice. Ainda não tinha chegado o Inverno e de repente, um raio fulminante cruzou o céu da paixão. Ele desencadeou a tempestade. Um café, uma flor, uma palavra sem pensar. Um verbo trivial. Uma simples palavra, da qual já quase não sabia o significado, mas que traduzia simplesmente afecto e bem-querer. Uma hecatombe. Qual furacão irrompeu no meio da amizade. O abalo foi forte. Tão forte como aquela mulher. Desafiando as leis da física, mas de acordo com as ciências da vida, subitamente o sol fez-se neve. A memória dele, fez clique por breves segundos e relembrou-lhe uma verdade elementar que ele esquecera. São as mulheres que escolhem os homens. Exactamente assim. Tão simples quanto isso. O coração dele ganhou uma nova forma, estranha, quase portátil. Sentiu uma dor, levou a mão ao peito. Ardia. Quando olhou a mão, viu uma coisa estranha. Na palma da mão tinha decalcada a nova forma do seu coração. Uma tecla com três letras. Del. Ligou o MP3 e ouviram-se os primeiros acordes de Vivaldi.

Inverno.

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