Quatro Estações – Parte I – Inverno.


Tal como durante o ano, na vida de um país e na das pessoas que nele habitam, existem também quatro estações. Infelizmente sobre o nosso país caiu um Inverno que tudo indica vai ser muito longo e frio. Contudo cada dia pode ser construído à nossa medida por cada um de nós, consoante a coragem de cada um. Deixo-vos aqui uma história escrita no final de 2008 sobre o:

Inverno

Inverno. Do lado de lá das vidraças o branco espraia-se pela serra da Lousã. Num suave bailado os flocos de neve, flutuam no seu percurso indolente do céu à terra sob um vento gélido e seco que trespassa a aldeia, as encostas de soutos, de carvalhos e o meu coração. Dizem que o vento e o tempo é que fazem andar o mundo. Não concordo, pois como deves saber, quem tem a última palavra é sempre Deus, porque é Ele que comanda as duas únicas coisas que fazem avançar o mundo. Os corações e o tempo. Ambos movem o mundo, num movimento perpétuo apenas interrompido quando nas encruzilhadas da vida, a brisa leve dos sonhos se desfaz, às vezes lentamente, como a neve num dia de sol, outras, bruscamente como uma saraivada destruindo uma vinha promissora.

Não sei se é o tempo que gela os corações, ou se são os corações que param o tempo. Para o caso não interessa. O tempo gelou no coração e o coração parou no tempo. Há corações assim. Param. Ficam estáticos, petrificados pelos vulcões que por vezes, rebentam na vida, sem qualquer aviso. Outros hibernam, num processo lento, perdendo toda a esperança, que é o sangue de qualquer um de nós. É essa a seiva da vida, que assegura a nossa capacidade infinita de sonhar com dias onde o teu riso e o meu se confundam num orgasmo de paz.

O frio entra de mansinho pelas paredes cor de neve e instala-se ocupando o espaço, a pele e os ossos. Tudo está um gelo. A casa, o céu, a serra, os pássaros, os veados, a dor, o silêncio, o coração. Eu. tu. A vida. Lá fora o ribeiro que desce a montanha gelou igualmente, irrompe contudo no ar a nobreza dos castanheiros vestidos de branco, alastra também a dignidade dos medronheiros, que submissos  à intempérie têm a certeza de que vão dar fruto, tal como eu tenho a certeza de realizar os meus sonhos.

Talvez um dia te leve aquele castelo mágico de Arouce, onde dormem na penumbra dos séculos os tesouros de uma princesa sereia como tu. Talvez sejas tu mesma o tesouro. É difícil perceber quando temos um grande tesouro diante de nós, sabes porquê? Porque nem os homens, nem as mulheres, acreditam em tesouros. O meu mundo não é como o dos outros, por isso eu acredito. Piamente. Tal como acredito nesses olhos aos quais dei os meus, como o céu te deu as estrelas para tomares conta delas nas noites de lua cheia. Dizem que os olhos são o espelho da alma. Não creio nisso. São o espelho do coração. E não enganam nunca! Tal como a bruma desta serra, os teus olhos de abismo são misteriosos, mas um olhar mais atento desvenda todos os seus enigmas, como o sol sorrindo por entre a bruma revela o céu.

O crepitar da lareira chama-me num tom desesperado tal como o teu coração chama o meu. As chamas azuladas cintilam como os teus olhos num dia de paz, irradiando raios de luz que reacendem a esperança. A mesma esperança que permite a cada um de nós recomeçar perante qualquer fracasso na vida, que permite ter tempo para amar, ter tempo para ser feliz e ter tempo para viver cada dia e cada hora como um presente. É por isso que te digo, todos podemos ser como a serra, que renasce em todas as estações, todos pudemos mudar-nos a nós mesmos e mudarmos para melhor. O mister da vida ensinou-me que não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem. É por isso que os chapins-reais e os rouxinóis que habitam esta serra são felizes, pois têm a coragem de ser livres.

Há dias que são construídos à medida, têm as horas que nós quisermos. Dias raros mas existem. No Inverno há dias assim. Como sabes o Inverno é composto de rituais. A neve, a chuva a bater no rosto, o nevoeiro, a lareira, as castanhas, o vinho novo, a missa do Galo e o espírito de união das pessoas que não desistem umas das outras, pessoas que se ligam por laços de ternura e amor invioláveis e que lutam umas pelas outras. Talvez não saibas mas Natal é quando nós somos o melhor do mundo para alguém. É esse o espírito do Natal.

É por isso que o Natal é quando um homem quiser…até mesmo num dia de Inverno.

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14 respostas a Quatro Estações – Parte I – Inverno.

  1. Maria P. diz:

    António,
    que prazer esta leitura.
    Espero que nunca ponha as suas palavras a hibernar

    :)Abraço*

  2. Maria P.,
    Obrigado pela sinceridade que demonstra nas palavras que aqui me deixou.
    Nem sempre me é possível escrever e estive durante mais de um ano sem o fazer. Espero fazê-lo com mais regularidade no próximo ano.
    Abraço

  3. T!na diz:

    Além do texto sobre o Inverno que está lindo
    estas foram as frases que mais me disseram:

    ” … não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem. ”
    ” Natal é quando nós somos o melhor do mundo para alguém. É esse o espírito do Natal.
    É por isso que o Natal é quando um homem quiser…até mesmo num dia de Inverno.”

    Obrigada pela partilha,
    Um Santo Natal
    Cristina

  4. Grato pelas suas palavras Cristina. Espero que as palavras que citou desta história lhe possam ser úteis, não só neste inverno, mas durante todo o ano.
    Se as histórias que escrevo, poderem de algum modo colocar os leitores a reflectir sobre o que conta na vida, então já valeu a pena escrevê-las.
    Talvez um dia coloque aqui uma história sobre a liberdade.
    Um Santo Natal.
    António

  5. Concordo que a vida é feita de ciclos e que todas as “estações” nos fortalecem e nos preparam intimamente para a “estação” seguinte…

    Gostei muito do texto :)
    Um abraço

    [grata pela visita e pelas palavras]

  6. Grato pelas suas palavras Virgínia. É verdade que todas as estações nos fortalecem, apesar de na vida existirem estações que duram uma eternidade, antes de se suceder a estação seguinte.
    Abraço

  7. eu também acredito em tesouros,
    da escrita, sobretudo

    tal como as quatro últimas canções, esta canção de inverno, é romântica
    por vezes escura,
    outras
    serena e doce como o natal!

    um abraço

    manuela

  8. Obrigado Manuela pelas suas palavras. Todos aprendemos nas histórias que os tesouros são raros e difíceis de alcançar. Todos, sejam eles quais forem.
    Abraço

  9. Obrigado pela sua visita, que me abriu a porta para o seu espaço.
    Voltarei.

    Abraço

  10. Obrigado. Volte quando entender.
    Abraço

  11. Já aqui foram citadas várias passagens bonitas, eu cito mais uma: “a dignidade dos medronheiros, que submissos à intempérie têm a certeza de que vão dar fruto, tal como eu tenho a certeza de realizar os meus sonhos.” É importante termos a certeza de que se vão realizar os nossos sonhos.

    Obrigada pela visita. Quanto ao seu comentário, concordo consigo. Apesar de ter algumas dúvidas quanto à origem do aquecimento global, não há dúvida de que o Homem destrói a Natureza. E acho que é legítimo usar o aquecimento global como pretexto para que as pessoas tenham mais consciência disso e passem a preservar o ambiente.
    Esta sua história é um bonito hino à Natureza.

  12. Muito obrigado pelas suas palavras e por ter concordado com as minhas. A parte do texto que citou é uma crença que tenho, pois acho que toda a gente pode atingir os seus sonhos, se tomar uma atitude proactiva na vida.
    Para o ano colocarei aqui mais histórias em que a natureza tem um papel importante.
    Abraço

  13. antonio implume diz:

    O frio do inverno iludido por uma escrita quente.

  14. Para mim todas as estações são boas para escrever.
    Um bom ponto de vista António, nunca tinha pensado nisso mas concordo. As palavras também podem aquecer o espírito.

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