No final de cada ano todos devemos, por norma, aproveitar para realizar um balanço do que fizemos bem e, também, do que não devíamos ter feito. Só assim podemos traçar melhor os objectivos para o ano seguinte e procurar ser melhores seres humanos a cada ano que passa.
Neste blogue a natureza vai andar muitas vezes, lado a lado com os personagens das histórias que nascem neste teclado. Hoje trago-vos aqui uma história que por acaso foi escrita exactamente no dia a que a mesma se refere, tendo sido também a primeira que escrevi na vida. Deixo-vos com:
O primeiro dia…
Anoitecia suavemente nesse Setembro. Guiado pelo marulhar das ondas, mergulhou no silêncio da noite. Chegado à praia, parou. O mar descarnava a praia, retirando em cada onda, grão a grão, a roupagem que tapava as rochas, despindo-as para as voltar a possuir na próxima preia-mar.
Sentia-se como a praia, a descarnar por fora. Estava ali e não estava. A mente sentou-se num pequeno fragmento de azul transfigurado em prata que desaguava na Lua, grande, redonda, prenhe de sonhos. Estava longe dali. O seu corpo tomou lugar no muro da marginal.
Uma luz brilhou na espuma de uma onda. Era um sargo reluzente, a debater-se, apanhado numa rede fatal, quase tão fatal como aquelas com que a vida o presenteara até ali. Surpresas da vida. Da dos peixes e da dos homens. Também ele se sentira aferrolhado pelas redes que a vida lhe armara. Derrotas. Vitórias. Saldo final. Vivo. Saudável. Lhano. Forte. Não era uma questão de força de vontade. Era, isso sim, de vontade de fazer força. E isso ele tinha. Objectivo também. Viver.
De repente o mar acalmou. Transfigurou-se. Era agora um rio calmo e tranquilo. Assim ficou ele, sereno e quieto como o mar, olhando o rio de prata que desaguava no ventre da Lua. Não tinha memória de um momento assim. Verdadeiramente, a sua memória tinha entrado em blackout. Senti-a apagar-se, ganhar aquela cor enevoada e esbranquiçada da bruma.
Ficou numa espécie de transe. Fechou os olhos e sem saber porquê, uma a uma, as lágrimas começaram a soltar-se. Primeiro numa cadência suave, depois deslizando pela face sem parar, percorrendo um longo e silencioso caminho até ao coração. Não, não eram lágrimas de tristeza e sofrimento. Pela primeira vez na vida eram lágrimas de alegria, gratidão e paz. Uma paz imensa e terna, que ele julgou irrepetível e única. Voltou a abrir os olhos e viu uma gaivota cruzando a noite, numa valsa voluptuosa sob a benção da Lua.
Deu uns passos e num último bem-haja, agradeceu aquele momento. Fez meia volta e regressou a casa. Deitou-se e adormeceu profundamente. Dormiu umas catorze horas. Nunca tinha dormido tanto tempo.
Como todos os seres humanos, levara muitos anos a solidificar as suas crenças. Cometera imprudências, fizera tentativas, tomara decisões, às vezes erradas, outras certas. Aprendera, desse modo, a dobar os trilhos emaranhados da vida. Não era, certamente, uma pequena pérola, não tinha tido tempo para essa metamorfose. Os grãos de areia numa ostra levam muito tempo a transformar-se e nem todos se tornam pérolas, mas todos tem essa oportunidade, se quiserem. Neste processo de amadurecimento, a vida não pára. Nós é que queremos, às vezes, que ela pare e fique assim quieta, sem mexer, eterna. É nessas horas que experimentamos clarões de felicidade. Mas a vida nem sempre acata os nossos pedidos. Todas as semanas começam à segunda-feira. A vida desenrola-se semana, após semana. A sua recomeçou, também a uma segunda-feira. E mudou, para melhor. Novas oportunidades, novas competências, novos desafios, novas amizades. Algumas derrotas. Vitórias também.
O reinício ocorreu num final de tarde. Desceu à praia, num tom adocicado e leve as ondas e o vento libertavam a espuma em gomos leves, uns mais pequenos, outros maiores, sempre com a certeza que seriam desfeitos e refeitos novamente, tal como a roda da vida, fazendo e desfazendo sonhos. Reparou em duas gaivotas, a dançar rasando as águas. Devagar, sentaram-se no azul-prata. Ele num movimento reflexo consciente imitou-as. Sentou-se, bem ao largo, no seu pedaço íntimo e secreto de azul. Uma gaivota levantou vôo em silêncio dirigindo-se para norte. A outra piou, elevou-se no ar e mergulhou seguindo as leis da vida. O Sol tomou o rumo da gaivota e num vôo deslumbrante, pousou suavemente no mar adormecendo em paz.
Ele, pela segunda vez na vida, chorou lágrimas de alegria, gratidão e paz. Ergueu-se. Apressou o passo. Chegou a casa, deitou-se e aconchegado pela luz doce dos sonhos, adormeceu. Outras catorze horas. No dia seguinte, levantou-se, fechou as portas do coração e mergulhou olimpicamente na vida. Era o primeiro dia de um novo ano.
O dia mundial da Paz.