A estação que nunca deve fechar.


O comboio deixou de apitar na Linha do Tua e em muitas outras linhas deste país. Já não há passageiros nas estações. Na Linha da Vida de qualquer leitor ou leitora, o comboio pára por vezes também. Uns dirão que a razão é a mesma, não há passageiros. Pelas mais variadas razões, uns porque partem rumo ao céu, dos que por cá ficam, uns rumam ao desconhecido, outros a lado nenhum. Outros mais conhecedores dos caminhos de ferro, poderão tentar sugerir outra razão. O descarrilamento do comboio da vida. Contudo, na Linha da Vida ao contrário das linhas abandonadas, há sempre uma estação que nunca fecha e tem um nome que nunca devemos esquecer.  Esperança em dias melhores.

Tal como as palavras também há sons que marcam. Deixo-vos aqui uma pequena história, que escrevi há uns anos, intitulada:

O som da noite…

As águas revoltas batiam furiosamente nas rochas. Os salpicos de espuma penteavam as ondas enraivecidas pela nortada. No meio daquele turbilhão imenso espreitavam espessos remoinhos de areia, cavalgando as ondas num galope louco, desvanecendo-se num último estertor à medida que engrossavam o lado sul da praia, tapando apressadamente as raras pedras negras que impávidas como estátuas, espreitavam os raios ténues raios do sol invernal.

De súbito um grito de uma gaivota ressoou no ar. Uns metros à sua direita, uma gaivota  parecia fitá-lo bem dentro dos olhos. Os primeiros beijos da chuva deslizaram-lhe suavemente pela cara rude. Na tez, a pele seca, nas mãos, os nós dos dedos deformados pelas agruras do tempo e da vida. No olhar, a neblina da angústia. Há muito que o comboio da vida parara numa estação qualquer, sem nome, sem cor, sem luz. Vazia, estática, silenciosa. Há estações assim. Fantasmas. Habitadas apenas pelas sombras, as do passado e as do presente. Para o comboio voltar a partir, não basta o apito agudo da consciência, é preciso também alimentar a caldeira. Dar-lhe fogo, luz, talvez até repor o coração a crepitar, alimentando as brasas que sobram depois de uma paixão, com o sopro ténue de um sorriso singular, de uma mão que desvia o cabelo dos olhos, descobrindo novamente a luz da vida.

A tempestade deixara na praia uma camada de espuma. O vento forte levantava-a em grandes flocos depositando-a na marginal. Já quase que não se via o alcatrão, apenas um tapete acastanhado, sujo e baço. Pareciam flocos de neve a voar. Na vida inteira apenas vira uma vez nevar na praia. Nesse dia o frio branco desceu à terra, durante umas cinco horas ininterruptas. Os barcos vestiram-se de um branco imaculado. Os homens vestiram-se de admiração. Nunca tinham visto nada assim. Para os garotos da vila, foi muito melhor que um mergulho num dia de verão. A praça central, viu, pela primeira e única vez, desenrolar-se uma batalha campal. As bolas de neve faziam as delícias dos miúdos e dos graúdos. Os pescadores assistiam com um olhar incrédulo e ao mesmo tempo deslumbrado. Mais um dia sem poderem ir para a faina ganhar o pão. Mais um rombo nos seus magros rendimentos. Naquela tarde, naufragara um barco umas milhas para sul. O mar na sua avidez desumana, tragara duas vidas, outras tantas foram salvas por um navio que captou os pedidos de socorro.

Nunca percebeu porque Deus fez o mar assim, rebelde e terno, selvagem e meigo, salgado e doce, tempestuoso e calmo, com um som assustador e um marulhar sereno. Deus deve saber o que faz, ao contrário dos homens, pensou com os seus botões. Estes se soubessem o que fazem, já teriam acabado com a fome e com a guerra. Podiam fazer como ele. Tentar aprender com os erros. Isso já seria muito. Não sabia se bastava para ingressar de novo no comboio da vida. Tão pouco isso lhe importava. Nesse dia tinha muito mais em que pensar.

Anoiteceu rapidamente, a vila ficava linda com as luzes. Olhou o mar pela última vez, deu meia volta e regressou a casa. Não jantou, não tinha fome, não tinha sede, não tinha sono. Tinha tudo e não tinha nada. Abriu a gaveta da cómoda, retirou uma pequena caixa, encheu um copo com água e tomou meia dúzia de soporíferos. Depois foi ao outro quarto, buscar uma caixa linda e um sapato. Tamanho trinta e quatro. Colocou tudo carinhosamente  perto da chaminé aos pés d’Ele, enquanto o  relógio da sala assinalava as dezanove e quarenta e cinco de um dia qualquer…

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12 respostas a A estação que nunca deve fechar.

  1. às dezanove horas e quarenta e cinco
    partiu o primeiro comboio de um dia maior

    em busca do outro sapato perdido

    duro e puro o seu conto!

    um abraço

    manuela

  2. Graça Pires diz:

    Um texto excelente. Triste e lúcido. Os combóios, os da vida e os outros serão sempre necessários se não desistirmos deles, principalmente quando a esperança não é fácil de manter…
    Beijos.

  3. Sim, todos nós nos deparamos com becos sem saída, em alguma altura da vida. Mas nunca devemos esquecer que há uma estação que nunca fecha. E aprender com os nossos erros também é importante. O problema é que, para isso, é preciso admitir os erros…

    • As suas palavras Cristina, são bem construtivas. Ter a consciência e a coragem de admitir os nossos próprios erros, é a base para podermos melhorar em qualquer aspecto da vida, seja no profissional, seja no familiar ou no plano da escrita.

  4. António, Obrigada pelas palavras e pela sugestão deixada no meu lugar :)
    Um abraço

  5. Virgínia,
    Não tem de agradecer. Nós é que temos de agradecer o facto de ter chamado a atenção para o problema da fome das crianças. Infelizmente em Portugal está-se a chegar a essa situação de fome também. Já há muitas crianças que só comem na escola, pois não têm pão em casa. Cabe-nos a todos ajudar no que pudermos, nem que seja ao menos no Banco Alimentar, ou na Caritas, ou na AMI ou noutra instituição de apoio social.
    Um abraço.

  6. Maria P. diz:

    Muito marcante. Numa altura da minha vida em que a linha da saúde não anda nada regular, certas palavras tocam de uma forma profunda…

    Um beijo*

  7. Obrigado pelas suas palavras Maria P.
    Faço votos que a sua linha da saúde regresse à estabilidade rapidamente.
    Um beijo também.
    António

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