Palavras em movimento…


Há  palavras que têm um movimento de vaivém. Ambas têm significado para a maioria das pessoas, embora tenham importâncias diferentes para cada ser humano. Cito apenas três dessas palavras com essa propriedade particular; dinheiro, trabalho e amor. Na constatação desse movimento de vaivém a ordem das palavras é arbitrária. Existe contudo um substantivo abstracto sobre o qual, provavelmente, muita gente será levada a pensar que tem,  também, um movimento pendular de vaivém, mas não o tem de todo, exactamente por ser abstracto. Não se detecta com nenhum sentido. Não se cheira, não se ouve, não se vê. E a razão é simples, porque essa palavra traduz sempre uma coisa efémera. Saudade. Talvez esta palavra seja mesmo portuguesa, desconheço a sua origem, sei apenas que tem tradução em muito poucas línguas, uma das quais é a língua arménia.

Há uns anos escrevi uma história que termina num penedo que tem um farol com nome de substantivo abstracto. O farol situa-se na costa oeste e entrou em funcionamento em 1912. Espero que seja do vosso agrado.

Saudade…

Vagueio na noite ao sabor de um luar ténue, esbatido pela neblina que me afaga o rosto. Rasgo o caminho da saudade em passos rápidos. Esquadrinho o futuro guiado pela luz embaciada do farol. Procuro-te na praia, procuro-te na bruma. Existes. Já vi esses teus olhos profundos de abismo onde os meus se afogaram docemente. De dentro dos teus olhos saem perigos inimagináveis. Feitiços de sereia que enleiam, tolhendo-me o espírito, o coração e o corpo. Procuro as marcas dos teus passos indeléveis no caminho. Chego à praia e embrenho-me na bruma. A memória traz-me o odor da tua pele, do teu corpo, do cheiro dos teus cabelos dourados, tão rebeldes como tu. Paro à beira do mar e chamo por ti…Não obtenho resposta. Talvez as sereias durmam como os peixes, embaladas pelas ondas suaves do mar. Sabes, nunca percebi muito de sereias, nem mesmo depois de ser apanhado pelo teu canto inebriante. Não sei se alguma vez te disse que a tua voz maviosa transmite ondas de paz, como os murmúrios doces do mar nas maré vazia. Vagarosa, terna, um leve marulhar que invade as avenidas do meu corpo em direcção à alma. Só ela acalma as saudades, como um paliativo temporário cujo efeito passa depressa. Se eu soubesse qual é o remédio para essa doença que me consome por dentro, tomava-o de uma vez só. A saudade não tem cura, pois não? Não deve ter. Não faz mal. Em todo o caso, mantém acesa a língua de fogo que nos une. A chama impetuosa da vida, cada vez mais viva, mais forte, mais nossa. Só tua e só minha.

Durante muito tempo foste um sonho. Um sonho que nasceu ao invés de um ser humano. Nasceram primeiro as palavras, depois a tua voz, depois o teu rosto, os teus olhos e o teu corpo. Tu nasceste assim, da bruma dos dias. Despontaste das águas, vencendo as sombras que encobriam os caminhos ínvios do meu coração. A vida é estranha. Surpreende-nos sabes? Primeiro dá-nos a pureza das crianças, depois dá-nos a vontade de crescer rapidamente e, quando crescemos, vemos que perdemos tanta coisa boa da nossa infância e da nossa juventude. Castigos da vida. Há quem se esquive dos castigos, outros infelizmente esquivam-se de viver. Já não tenho forças para me esquivar. Nem de ti, nem da vida. Há que cumprir a vida, cumprir os sonhos. Os secretos, que são quase todos e os outros, os impossíveis. Eu não deixei de acreditar em sonhos impossíveis. Sortilégios da vida.

Talvez a vida seja feita de extremos. Connosco os extremos têm nome. Paixão. Êxtase. Saudade. Distância. Grito. Tempo. Cartas. Outra vez paixão, êxtase, novamente saudade, distância, grito, distância, tempo, cartas, paixão. Um ciclo que um dia havemos de quebrar. A tua voz é como a paixão. Ambas cheias de perigos. Contudo a tua voz não se apaga, ecoa na memória, as paixões como deves saber apagam-se. Ardem em chamas, primeiro ternas, depois agigantam-se em labaredas azuis encarniçadas subindo ao céu. De seguida num processo lento, desvanecem-se com a serenidade e a tranquilidade dos dias. A rotina é fatal. Distrai-nos e sem darmos conta destrói-nos, por dentro e por fora. Primeiro, amolece o coração, depois abrandece a alma, de seguida afrouxa o corpo. Fazer amor, por vezes, torna-se uma rotina programada. Quando a rotina descamba numa obrigação, morremos por dentro. Um dia hei-de morrer por fora. Por dentro jamais. Nunca te deixes morrer por dentro. Prometes?

Caminho à beira-mar. Ao longe dois ou três vultos. Pescadores noctívagos. De peixes claro. Eu não sei se sou um pescador da vida. Já fui um peixe, talvez até um barco ao sabor das marés da vida. Já fui. O passado morreu. Afundou-se nas gavetas obscuras do tempo. Num assomo de bravura, renasci das cinzas doutras paixões. Peguei no leme da vida e rumei à ilha fantástica. Nunca te disse o nome dessa ilha, pois não? Também não o sabia, por isso nunca o pude dizer. Agora já sei o nome. Queres saber? Não, não estou a fazer nenhum mistério. É uma ilha tão misteriosa como tu. Conhece-la? Não? Ainda bem. Assim podemos ser dois a descobri-la. Se tu quiseres claro. É só uma questão de traçar a rota, enfunar as velas do coração e aproveitar os ventos quentes que nos aquecem a alma. Tempestades hão-de vir. Tempos de vagas alterosas, de ventos contrários até. Entremeados por bonanças, pela serenidade das calmarias. Pelos momentos únicos e irrepetíveis da paz que irradia dos teus olhos de abismo, do calor do teu corpo, do ardor do teu ventre. De ti sereia.

Subo as escadas da esplanada. Saio da praia e embrenho-me mais fundo ainda na madrugada. A luz do farol num ritmo cadenciado conduz-me pela marginal acima. Os meus passos desaguam no caminho de madeira, por cima dos penhascos. A madeira range, mas não cede sob o peso do meu corpo, tal como eu não cedo sob o peso do passado. Progrido lentamente na neblina, a maresia entra-me na pele, irrigando o meu corpo de um sangue rejuvenescido, rubro como o meu coração. O meu corpo pára no miradouro, a minha mente não pára. Percorre o teu rosto, o teu sorriso alvo, os teus lábios, o teu pescoço, as colinas do teu peito, entrando em ti como a aurora entra na noite escura até ser dia, num orgasmo cósmico.

De súbito a lua triunfa sobre a bruma, abrindo-se um rio de prata no mar que desagua a lamúria terna das ondas lá em baixo. A luz do farol cruza o céu salvando os homens perdidos no mar, tal como a luz que irradia dos teus olhos me salva dos dias pardos e das noites brancas. Saio do trilho de madeira, ando mais um pouco e chego ao farol. Estaco a ver as lanternas semeadas pelos homens no mar. A lua beija ternamente o mar e no azul-prata, descubro os contornos do teu rosto. Tapo os ouvidos com as mãos para não ouvir o teu cantar de sereia. Em vão. Esqueço-me de um pormenor. Deus está nos pormenores sabes? Um detalhe. Um local único. Exactamente este, onde o farol domina a noite. Tem nome sabes? Um nome de padecimento. Penedo da Saudade.

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12 respostas a Palavras em movimento…

  1. Gostei das palavras pendulares e do conto, mas em particular do remate final do conto, e desse “nome de padecimento”, imagem que se desfaz na nossa boca em puro mel.

  2. Viva António,
    Muito obrigado pelas tuas palavras sobre o conto, sobre as palavras pendulares e obrigado também por essa imagem sobre o final do conto, pois afinal um conto também se pode saborear.
    Um abraço.

  3. S. Pedro de Moel é um lugar do meu coração!

    não sei se me cruzei algum dia com a sua sereia,
    o mar é forte e a neblina é companheira de todas as manhãs

    mas quem já foi peixe, saberá decerto o caminho das águas

    um abraço

    manuela

  4. Obrigado pelas suas palavras Manuela. As sereias são apenas seres da mitologia e dos filmes, na vida real não existem.
    Não percebo muito do caminho das águas. Talvez seja como o da vida, talvez se faça caminhando.
    Um abraço,
    António

  5. Graça Pires diz:

    Gostei deste conto com um imaginário fantástico e sentimental.
    Beijos.

  6. Viva Graça,
    A minha gratidão pelo seu comentário e por ter gostado das palavras simples que teci.
    Beijos.

  7. António, quem lê este breve conto percorre consigo trilhos íngremes da alma.
    Gostei imenso.

    Um abraço

  8. Muito obrigado Virgínia por ter gostado deste conto simples. Interessante essa perspectiva dos trilhos íngremes da alma. Cada leitor tem a sua perspectiva e interpretação. Isso enriquece sempre as histórias e, mais do que isso, enriquece quem as escreve também.
    Um abraço.

  9. Interessante essa expressão de palavras com “um movimento de vaivém”, servindo de ponte para a palavra “saudade”, que, apesar de ser um substantivo abstracto, possui tanto potencial de inspiração, será mesmo infinito.

    “Eu não deixei de acreditar em sonhos impossíveis” – ainda bem :)

    “Deus está nos pormenores” – é isto que não nos deixa morrer por dentro, apesar da rotina…

  10. Obrigado pelas suas palavras Cristina. As três palavras que citei no início do texto, têm mesmo um movimento de vaivém, perdem-se e recuperam-se, pois a vida é feita de ciclos.
    Creio que a rotina não gera crescimento e por isso todos devemos fazer os possíveis para a combater.
    Um abraço.

  11. André diz:

    A bruma. As sereias. Talvez faltem as gaivotas. Ou não, que isto é bem possível ser eu a divagar!…

    As sereias, contudo, possuem múltiplos recursos – há muito que Ulisses deu conta deles. A saudade, porém, talvez seja o lamento da ternura quando os sonhos escutam a voz dos búzios e o abstracto feitiço da distância.

    • Obrigado pelas suas palavras André.
      Pessoalmente acho que as gaivotas têm vantagens quando comparadas com as sereias, pois são capazes de voar contra o vento. Mas o André tem toda a razão, quem percebe de sereias é o Ulisses, pois ele venceu-as, como conta Homero no grande poema épico da Odisseia.
      Espreitei o seu blog e gostei do modo como escreve. Muitos parabéns.

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