A tua marca…


Na vida de qualquer ser humano, quase toda a gente pode dizer de viva voz palavras tão simples como um nome por exemplo. Contudo há nomes que nem sempre é possível pronunciar pelas mais variadas razões.

Como já vos disse no primeiro post deste blogue, as palavras deixam marcas. Os nomes próprios são contudo uma categoria de palavras especiais, com uma propriedade ímpar e exclusiva, deixam uma marca de per si, sem precisarem de mais nenhuma palavra a acompanhá-los.

Não sei quanto tempo, é que vós, os que têm a bondade de ler “O marca das palavras”, costumam demorar para escrever uma carta, creio contudo que será apenas uma questão de prática. Eu nunca tive muito tempo para escrever cartas, por isso não sou versado nessa arte. Esta que aqui vos deixo, demorei uns milhares de dias para a escrever. Assim que a escrevi, enviei-a de imediato e sei que chegou ao destino pois tive resposta. Deixo-vos com uma carta enviada de um lugar que demorei muito tempo a descobrir, (mas que todos nós podemos descobrir)  para um destino ainda mais especial…

“Baixei-me, apanhei um punhado de areia. Areia, branca e fina, como a minha memória sobre ti. Subi para o barco, abri a mão e o vento levou os finos grãos de areia que continham a memória dos dias que passámos juntos. Peguei nos remos e iniciei a viagem que me trouxe até esta ilha. Cheguei hoje. Demorei mais de dezasseis mil e trezentos dias. Valeu a pena, esta longa e dura viagem para te poder dizer o que te quero dizer. Um dia, não sei quando, hei-de dizer-to face a face. Hoje mando-to por esta via…

Nesta longa jornada, como bem sabes, porque me tens acompanhado sempre, as tormentas foram muitas. Umas atrás das outras. Dias de bonança, também, salpicados aqui e ali por tempos de um sol radioso e pelo mar azul da paz.

O Zé contou-me muitas histórias de caça e da vossa amizade. A do Perry, o teu cão que lhe salvou a vida naquela madrugada em que o levou para a caça e tu não pudeste ir. Um acidente. Um tiro. Dois dedos. A menos. O sangue a jorrar sem parar, longe do mundo e de todos. Valeu-lhe o Perry, que foi buscar ajuda a tua casa. A mais de nove quilómetros de distância. Valente o cão. Valente o Zé. Contou-me de ti, dele, dos tempos de tropa em Cascais. Dos tempos longínquos da juventude. Dos teus primeiros tempos de casado. Histórias, que só agora conheci. De como lhe dizias:

– Ó Zé, tu querias era ter um assim.

Bons tempos com certeza. Sabes, o Zé casou, já deve ter quase uns cinquenta anos de casado. Nunca teve filhos. Dei-lhe um abraço sentido. As lágrimas, primeiro, vieram-lhe à tona dos olhos. Aos dois. Depois saíram como uma chuva de Inverno na praia. Grossas. Era a vida a transpirar gotas de suor, genuínas, cristalinas, daquelas que reflectem o brilho da alma.

Sei que tentaste falar comigo muitas vezes. Por qualquer tipo de problema de comunicação nesta rede complexa que é o mundo, nunca consegui apanhar o que me querias dizer. Foi preciso um tsunami para o perceber. Entendi tudo. Agradeço-te a ajuda. Estavas lá, sem ninguém perceber como, ajudaste-me a enfrentar a enorme onda. Estranhas coincidências. Estiveste sempre ao meu lado e eu nunca o tinha percebido. Obrigado.

Houve uma pessoa que me disse para confiar em ti, que tu ias ser uma grande ajuda. E foste. Foste fundamental para eu chegar ao meu destino. Fazes mais na tua ausência do que muitos outros estando presentes. A vida tem processos estranhos. Transcorre em viagens entre o passado e o futuro, que nos colocam exactamente no local em que devemos estar em cada momento. No presente. É, estranhamente, um mecanismo fácil e simples. Sabes, é Deus a agir, como só Ele o sabe fazer, escrevendo direito por linhas tortas.

Hoje a minha memória sobre ti, ganhou cor, deixou de ser branca e ficou com um leve tom azulado. Quero terminar dizendo-te duas coisas que nunca te pude dizer, pois partiste muito antes de eu gatinhar. Duas coisas simples, tão simples como o mundo, apesar de nós termos uma habilidade inata para o tornarmos complexo. Sabes, aprendi a dar valor às coisas simples da vida. Exactamente essas, aquelas que contam na vida de um homem. Quero, apenas, dizer o teu nome, Raúl e que te amo Pai.

Sei que vais receber esta carta amanhã, pois terminei a minha viagem, cheguei a esta ilha. O destino trouxe-me aqui apenas por uma razão, é o único local do mundo que tem correio para o céu. Correio Azul.“

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20 respostas a A tua marca…

  1. Que os céus nos acolham, nem que seja em palavras…

  2. a vida
    é um lugar estranho

    e as ilhas, um porto de chegada

    muito bonito!

    um abraço

    manuela

  3. A vida, afinal, é tão simples! Porque a complicamos tanto?
    E há “cartas” cujas palavras chegam, mesmo, ao destino! Por muito longínquo que possa parecer!
    Escrito com a memória, viva, de uma ausência-presença sentidas, vividas! Encantador!
    Abraços

  4. Graça Pires diz:

    A carta sensibilizou-me imenso. Diz tanta coisa que faz parte do meu imaginário…
    Obrigada e um beijo.

  5. Tem razão Joaquim, a vida é muito simples, pena é que muitos de nós levem tantos anos a descobri-lo e, provavelmente, muitos nunca o chegam a descobrir porque não estão atentos ao que importa no mundo.
    Obrigado pelas palavras de apreço sincero.
    Abraço.

  6. Graça Pires, obrigado pelas palavras sentidas que aqui me deixa sobre esta carta.
    Um beijo.

  7. Sim, muitos de nós nunca chegam a descobrir como a vida é simples, temos essa “habilidade inata” para tornarmos o mundo complexo…

    “sei que chegou ao destino pois tive resposta” – lindo! Simplesmente.

  8. António, os nomes têm mesmo um poder que nos amarra, muitas vezes, à dor… Mas a dor depura-nos enquanto seres humanos. Eis a prova.

    O meu sensibilizado abraço

  9. Virgínia, muito obrigado pela sageza e sensatez das suas palavras.
    Um abraço sentido.

  10. obrigada António!

    pela informação do Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, em Mafra

    não sabia que existiam lobos tão perto de mim :)

    um abraço

    manuela

  11. Não tem que agradecer Manuela. Vale a pena visitar o centro de recuperação do lobo e a Tapada de Mafra.
    Um abraço.
    António

  12. Maria P. diz:

    António, como marcam as palavras…
    A vida, essa talvez fique mesmo por descobrir.

    Beijo*
    Maria

  13. Obrigado Maria pelas suas palavras.
    As palavras são o sangue da vida. As que dizemos e as que não dizemos.
    Beijos,
    António

  14. naty diz:

    Um amigo verdadeiro é alguém que chega quando todos os demais se vão, e se fica quando todos os demais desapareceram. Graças por ser meu amigo.
    Uma boa semana
    Bjs com carinho

  15. maria diz:

    Gostei muito de ler estas palavras. O meu pai também se chama Raúl…

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