O poder de decompor palavras.


O poder de decompor palavras.

Há palavras que foneticamente são difíceis de distinguir. Contudo as palavras têm vida própria de per si e também têm vida própria decompostas.

Não sei se conhecem o seguinte provérbio hindu:

“Quando falares procura que as tuas palavras sejam melhores que o silêncio.”

Quando escrevo é isso que procuro, que as minhas palavras sejam melhores que o silêncio. Nem sempre o consigo. Talvez o silêncio seja incómodo, talvez marque como as palavras. Há palavras com sentido, tal como o silêncio pode ter sentido também.

Aprendi contudo que o silêncio me proprociona momentos mágicos. É uma forma de comunicação poderosa comigo mesmo e às vezes também com os outros. É em silêncio que se tomam as decisões mais importantes da vida, porque é no silêncio que se escuta a voz interior que cada um tem em si mesmo. Do silêncio nasce a paz e desta surgem todas as melhores actividades e acções do ser humano.

Conheço bem o murmúrio do mar que se escuta no silêncio da contemplação. Às vezes, é aí que brotam as histórias que escrevo, tal como esta nasceu quase há quatro anos, nasceu apenas de uma palavra e da sua decomposição em duas. Ambas marcam.

Espero que esta história vos possa ser útil.

“Adeus. Fim. Ponto final. Adeus. Desde que me conheço como gente, usei esta palavra, duas vezes. Custa dizer adeus a amigos vintage. Cada vez que a pronuncio dá-me uma dor aguda no peito. Morre um bocado de mim. Hoje morro mais um pouco. Lentamente, o coração encolhe, o peito aperta, a pequena gaveta do esquecimento abre-se, o espaço exíguo ainda livre fica mais pequeno, entrando em turbilhão de uma só vez a voz, as memórias, as histórias, as palavras e os silêncios, as gargalhadas, as noites de petiscos, os magustos, os sorrisos, as confissões, tudo transformado numa dança de nuvens negras geradas por um abalo que nos apanha de surpresa, qual maremoto. Em cinco segundos a gaveta fecha-se num movimento instintivo e automático de caixa registadora das brumas da memória. Ninguém é perfeito. Merda de vida.

Não sei como fiquei assim. Não sei se toda a gente tem uma gaveta do esquecimento num cantinho qualquer do coração. Eu tenho. Até tenho duas, mas só uma é do esquecimento. A outra tem um nome estranho, com as marés negras da vida, para não morrer, qual náufrago, passei-lhe ao lado até que lhe aprendi o nome. A gaveta do amor.

Talvez tenha demorado muitos anos a descobri-las. A primeira, a do esquecimento, não demorei trinta segundos a aprender como se usa. Sem mágoas, sem hesitações, sem emoções. A outra, a gaveta do amor, tenho umas leves noções de como se deve usar. É muito mais difícil de usar, leva anos a aprender, às vezes uma vida, até há quem aprenda a usar a gaveta do amor nos últimos dias antes de partir rumo ao país que fica além do tempo e do espaço. O país da luz e não de trevas como alguns lhe chamam. Outros zarpam do mar da vida tão de repente que nem têm tempo para conhecer o amor.

Como em tudo na vida é preciso treino e existem regras. É preciso treinar a felicidade e para aprender a usar a gaveta do amor, só conheço uma regra, contudo deve haver mais, talvez um dia aprenda as restantes. A regra é tão simples e simultaneamente tão difícil. A melhor forma de receber amor é dá-lo. Elementar, dizes tu. Um ovo de Colombo. Sim. Depois de se conhecer a regra é simples, ou pelo menos devia sê-lo, mas a ondulação da vida, os golpes de vento, dificultam o seu uso. Além disso, existem pessoas que não gostam de regras. Não é por serem rebeldes. Nada disso. São gente de carne e osso como tu e eu, gaivotas solitárias apenas. Só isso. Nada mais.

Daqui do promontório, revejo o teu rosto, ora desenhado pela espuma no azul esverdeado do mar, ora nas asas de uma gaivota. Estás nas águas e no céu. Na chuva e no sol. Nadas e voas. Estás no marulhar rouco lá em baixo, no assobio do vento norte. Nos elementos. Nas gotas brancas que tentam desesperadamente subir a escarpa agarrando-se à nudez dos penedos, como um alpinista se agarra à linha de vida. Sabes nem todos os alpinistas conseguem subir o Evereste, uns ficam pelo caminho. Todos passam pelas mesmas dificuldades, a diferença está no modo como reagem às mesmas. Por isso alguns içam a bandeira e outros não. Ficam lá para sempre. É a diferença entre a vida e a morte.

Provavelmente o meu coração tem mais gavetas. Não sei. Também não sabia que tinha estas. Há tanta coisa que eu não sei e que gostava de saber. Tenho um método. Todos temos. O meu é simples. Embrenhar-me na floresta, conduzindo sem destino. A janela aberta, deixando entrar o cheiro dos pinheiros, o canto dos pássaros, o amarelo das mimosas e das acácias no tempo delas. O ar puro inunda-me o peito, o espírito e, por vezes, o coração. Regresso mais leve ao ponto de partida. Nem sempre resulta.

Hoje nada resulta, deixo-me ir qual ser errante, vagueando pela estrada, os pensamentos desabitam-me, sinto-me vazio, o volante conduz-me pelas sombras difusas da floresta, ando quilómetros, curvas e mais curvas, de súbito uma travagem brusca. Um miúdo vindo de lado nenhum atravessa a estrada. Sorte. Paralisei novamente. Estaco.

Olho-me ao espelho, a cor retoma vagarosamente o caminho do meu rosto. Tomo uma decisão, a única que me pode salvar. Arranco e dez minutos depois paro. Saio do carro e com o coração nas mãos, subo as escadas, empurro a porta. Pesada como a vida. Entro, avanço um pouco. Há muitos, muitos anos que não entro num lugar assim. Envolto na penumbra, vislumbro uma luz. Sento-me. As palavras não saem, a voz embarga-se. O silêncio percorre a conversa. Um amigo vintage. Alguém me disse um dia, quando já tudo nos aconteceu e pensamos que estamos perdidos, podemos sempre pedir ajuda. Na minha ignorância perguntei a quem. A resposta veio com um brilho nos olhos.

– A Deus.”

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16 respostas a O poder de decompor palavras.

  1. Encontremos palavras tão sublimes como o silêncio.

  2. Obrigado António.
    É uma missão que todos devíamos ter. Encontrá-las não é fácil. Há que tentar.
    Abraço.

  3. não há música sem silêncio

    já imaginou um adágio sem pausas?
    nas gavetas do seu coração, a Deus pertence a des ordem das coisas e a si, manter vivo o contorno de cada rosto
    ou o cheiro dos pinheiros mansos

    gostei muito do seu texto!

    um abraço, António

    manuela

  4. Partilhar silêncios é uma das mais sublimes formas de partilha. Eu gostei muito deste momento, que para mim, foi de silêncio. Ou talvez de silenciamento.
    Obrigada.

    Um abraço, António

  5. Obrigado por ter gostado desta simples história Virgínia. Podemos sempre decompor um Adeus em – a Deus.
    O poder do silêncio é regenerador e faz parte das coisas importantes da vida.
    Um abraço,
    António

  6. Graça Pires diz:

    As pausas também são música. Há silêncios que são gritos. Há palavras que valem mais do que o silêncio. Há palavras inúteis quando o silêncio é maior…
    Gostei muito do conto. “É preciso treinar a felicidade”… Como concordo!
    Beijos.

  7. Os silêncios só incomodam quando abafam o que deve ser dito!… Fora isso, são tão importantes como os sons, quaisquer que sejam: serão pausas, às vezes são, tantas vezes, momentos de partilha do que não se consegue dizer por palavras e se grita num olhar…
    Amigo, fez bem em “abrir esta gaveta” e deixá-la quebrar os silêncios!…
    Abraço

  8. Caro amigo Joaquim.
    Tem toda a razão. Há coisas que não se conseguem dizer por palavras só mesmo pelo silêncio. Gostei imenso dessa imagem dos olhares que gritam. Nos dias rápidos da vida de hoje, cada vez se olha menos olhos nos olhos.
    Um abraço,
    António

  9. “o silencio da-nos sempre silencio, e é no silencio que as pedras dormem”
    Silencio das pedras

    Vejo o silêncio das pedras
    Passar na água de um rio
    Quando vejo
    A tua face no leito

    O silêncio das pedras
    É o mais sagrado dos silêncios
    Nunca fica amuado
    E não revela os seus insencios

    Estar a beira de um rio
    Sentado numa pedra
    Ver agua a passar
    Por baixo de mim
    É ter umas folhas na mão
    E contemplar o mundo
    Com olhos molhados

    Caminho numa rua e sinto
    Passos
    Vou em silêncio
    Mas ouves os meus abraços

    Navego num rio gelado
    Sobre a tua leveza
    Com a cabeça aberta
    Jamais me sinto parado
    Na ato tua beleza
    Da “minha” descoberta

    És pedra nos meus versos
    E eu gelo do teu mar
    Cheio de olhos do céu
    Já li os teus poemas
    Com vontade de lutar
    Pelas folhas do teu véu

    Ouvir a tua voz
    E navegar no teu corpo
    É entrar na tua alma
    Num momento de clareza
    No vazio do teu silêncio.

  10. tanto silêncio, António

    um abraço

    manuela

  11. Obrigado Manuela pela atenção. Às vezes é preciso deixar falar o silêncio, outras somente doseá-lo, outras ainda usá-lo para alinhavar as palavras e procurar dar-lhes sentido. Por vezes o silêncio é preciso para viver.
    Espero em Setembro quebrar o silêncio.
    Um abraço,
    António

  12. Quicas diz:

    Fico à espera, António! Essa “gaveta” já deve estar a abarrotar de palavras a precisarem de ser “ditas”!
    Abraço
    Quicas

  13. Joaquim,
    A gaveta já tem muitas palavras realmente, prometo que este mês digo aqui mais algumas.
    Um abraço.
    António

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