Palavras homónimas.


Há palavras simples que às vezes nos surpreendem porque são como as pessoas, podem ter o mesmo nome, mas são completamente diferentes. As palavras homónimas são especiais porque são fios soltos, que com o  tecer dos dias se mudam, se transformam, se reinventam, até que por fim voltam a nascer com outro significado.

Esta história que aqui vos deixo foi escrita há uns anos e tem acoplado no final um pequeno glossário, pois necessitei de usar algumas metáforas, pelo que tive de pedir “emprestados” alguns termos técnicos a um amigo que não conheço, mas que é um especialista do vocabulário próprio da cultura taurina.

Deixo-vos aqui uma palavra homónima, que cresceu e se transformou numa história onde os leitores podem entrar e ser as personagens.

“Nós. Eu e tu. Tu e eu. O dia e a noite. A nuvem e o sol. A água e o fogo. O tudo e o nada. Na arena da vida enredam-se o pó dos dias e a cinza das noites. Resta a memória dos afectos, da luz dos teus olhos, dos longos silêncios entremeados pelo sibilar das lágrimas que o vento leva quais gaivotas. Queda ainda o eco longínquo do teu olhar penetrante perdido nas manchas áureas do tempo. Vagueio pelos interstícios do tempo, ao sabor do cheiro morno e quente da manteiga a derreter num bolo do caco, ou da textura aveludada de uma sopa de peixe do rio, sinto a brisa do mar que carrega o perfume dos teus cabelos, a tua graça e os teus caprichos. Vejo ainda as gaivotas bebés, dando os primeiros passos na corrida da vida, saltitando alegremente na areia, fugindo das carícias das pequenas ondas na maré baixa.

Na corrida da vida entramos todos levantados, soltos, investimos nos outros, raramente em nós, depois vamos parando cansados e ficamos aplomados entre a espada e a parede e, aí pode ser mesmo o último tércio da nossa vida. Muitos tem uma querença natural de não desistir, pegar a vida de cernelha e lutar, lutar, lutar sempre. Tu já foste assim. Eu também. Cansámo-nos os dois de suplicar um ao outro, gestos e palavras de amor. É a vida tal como ela é. Áspera com brandos fios de harmonia. São estes fios delicados que tecem de cores domingueiras os dias felizes, os únicos que contam no inventário da vida.

Não sei se alguns dos fios brancos que salpicam o mar revolto dos meus cabelos foram pintados por ti, ou se alguns dos teus retratam fielmente a neve e o frio que um dia cobriu o teu coração. Não interessa quem ganhou, nem quem perdeu, quando o amor fenece perdemos todos. Perdemos tudo menos a memória. Há pessoas que têm uma memória prodigiosa, contudo nem todas fazem o mesmo uso dela. Umas recordam apenas os bons momentos, mesmo que sejam escassos e esparsos, outras recordam só os maus momentos. Dizem que há uma diferença entre ambas, provavelmente a mesma que existe entre o aconchego de uma lareira e os flocos de neve que beijam a soleira de uma porta, coexistindo e matizando a vida em cores venturosas. Há diferenças indecifráveis, tão subtis como nobres, assim como há convenientes defensores da concórdia e paladinos da paz.

Quem recorda os bons momentos rejuvenesce, regenera o sangue, a cor da pele e o brilho nos olhos, acariciando as sortes da vida em tons ardentes. A vida é composta de simbioses, de tempos, de espaços, de partidas e regressos, de ausências, de solidão e de partilhas. Nem sempre áspera e agreste, nem sempre branda e indulgente. A vida é como o mar, tem marés.

Nos derechazos com que a nossa existência por vezes nos brinda, nem todas as estocadas são nefastas. Na majestosa tela da nossa existência há sempre cores vivas e intensas, umas vezes de sangue, outras de rosas rubras, coabitando com os tons azuis do céu e os brancos da paz. É por isso que num dia qualquer de Julho pode cair o rigor do Inverno mais frio e intenso, ou então o Natal ser um dia de radiosa Primavera, sob o calor tórrido dos corações.

A vida mimoseia-nos todos os dias com todas as cores do arco-íris, contudo esquecemo-nos sempre disso, somos cegos sem em contrapartida termos outro qualquer sentido super-apurado. Perdemo-nos de nós mesmos e depois procuramos em vão pela nossa alma. E aí estamos sós, sem saber como utilizar a paleta do arco-íris para matizar cada dia com momentos inesquecíveis. Pintamos na maior parte das vezes dias inóspitos e rotineiros, esquecemo-nos de rir dos outros e de nós próprios. Muitos de nós voamos diariamente em piloto automático em direcção a sítio nenhum, sem olhar para o painel de instrumentos da vida, onde piscam milhares de luzes. Tragados pela voracidade dos dias, chegamos a casa e aterramos instintivamente frente a um ecrã que nos come as palavras, os olhares, os gestos, os afectos. O calor da cama decresce na mesma proporção com que as palavras se silenciam, os lençóis outrora engelhados ganham a constância uniforme da goma. Mecanicamente as palavras de boa noite e de bom dia, sucedem-se num ramerrame que lentamente se desgasta na inércia dos dias. E depois a vida torna-se um emaranhado onde o mutismo é rei, dando a estocada final.

Na geometria da vida os círculos são a face do amor, há contudo umas formas bastante complexas. Nós. Todos somos gente que ama, sofre, ata e às vezes desata aquilo que há entre nós. A pergunta natural que colocamos na vida é sempre a mesma.

– E o que é que há entre nós? – A resposta é só uma e vem sempre na brisa do mar.

– Nós.

Que Deus reparta sorte!

_________________

P.S. Glossário de palavras retiradas da arte da tauromaquia:

Que Deus reparta sorte! – Os toureiros, quando entram na arena dizem, uns para os outros: “Que Deus reparta sorte!”.

Aplomados – um dos estados do toiro na arena. O toiro quando entra na arena está no estado de “levantado”, porque sai solto e atropela tudo na investida; quando começa a ficar cansado, passa ao estado de “parado”e é nesse estado que se fazem a maior parte das sortes de toureio, quando investe já com dificuldade está no estado de “aplomado”.

Tércio – Tércio é a palavra aportuguesada do termo espanhol tercio e se refere a cada uma das seguintes partes da lide:

  • Primeiro tércio: o toureio de capote e a sorte de varas.
  • Segundo tércio: a sorte de bandarilhas
  • Último tércio: o toureio de muleta e a estocada

Derechazos – Passe executado pelo toureiro com a muleta, que é dado com a mão direita mas nesse caso a flanela da muleta está mais aberta porque tem o auxílio do estoque que aumenta a largura da muleta.

 

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14 respostas a Palavras homónimas.

  1. Belíssimo texto, António. Profundo e eloquente. Uma sensata reflexão que nos deve fazer parar em “nós”.

    Um abraço

  2. Obrigado pelas suas palavras Virgínia.Tem razão, todos devemos parar para pensar nesta palavra que apesar de ser tão pequena, tem o tamanho que lhe quisermos dar.
    Um abraço.
    António

  3. Que Deus reparta sorte. Essa é a maior demonstração de espírito de grupo de pertença e de entrega total. Mais do que desejar boa sorte é pretender estar lá ao lado do amigo quando a sorte lhe bater à porta.

  4. Tens toda a razão António. Os toureiros e principalmente os forcados amadores são um exemplo de espírito de grupo e de entrega total, para os momentos bons e para os momentos menos bons. Os grupos que se vão formando na vida de cada pessoa, a nível profissional ou a qualquer outro nível, deviam comungar do mesmo espírito de grupo.
    Abraço.

  5. brilhante esta estocada!
    devorei, como um pedaço do bolo de caco, que adoro!

    mais delicados os toureiros: que Deus reparta sorte

    do que os actores antes de entrar no palco :)

    tenho sangue de toureio nas veias, da Lezíria, mas na arena, peço desculpa, mas estou do lado do touro, odeio touradas
    embora reconheça a beleza das cores, das palavras homónimas, da galhardia e do fado

    um beijo

    manuela

    • Obrigado pelas suas simpáticas palavras. Os toureiros são uns artistas, em tudo o que fazem, mas os forcados têm ainda mais valor porque actuam de graça.
      Não tem que me pedir desculpa, de nada, eu apenas usei termos da tourada porque se aplicam à vida real e ao fado que por vezes a vida é.
      Beijos,
      António

  6. Quicas diz:

    ” (…) Na majestosa tela da nossa existência há sempre cores vivas e intensas (…)” e as palavras, perfumadas pela brisa do tempo, vão se transfigurando, momento a momento, que nem arco-íris brilhante, indecisas entre o sol da primavera e o temporal do inverno persistente…!
    Palavras!?… e/ou… vida?!
    Abraço
    Quicas

  7. Caro Joaquim,
    Obrigado pelas palavras que aqui me deixa.
    Não tenho resposta para a sua questão final. Cada um terá a sua, pois todos os leitores podem entrar dentro da história e, ser eles próprios os personagens, quiçá até reverem-se no todo ou em algumas partes. Invento histórias com gente dentro, só isso.
    Parece-me contudo que as palavras se transfiguram sempre mais depressa que a vida.
    Um abraço,
    António

  8. Joaquim,
    Esta história nasceu apenas de uma ideia simples, começar e acabar uma história com a mesma palavra. Contudo quando pedi ajuda sobre alguns termos típicos da tauromaquia, surgiu-me a última frase desta história, que os toureiros usam quando entram todos juntos na arena no início das corridas.
    Um abraço,
    António

  9. Um belo texto com gente dentro, emoções à solta e muita cor.
    Talento grande o seu que aprecio e aplaudo.

    Felizmente, não aplaudo touradas nem toureiros nem forcados. NADA do que se passa antes, durante e após uma tourada.
    Desculpe amigo, mas não consigo deixar de dizer o que penso.

    Beijinho

  10. A minha gratidão pelas palavras que aqui me deixou. Pode dizer o que pensa à vontade, pois os termos da tourada que aqui utilizei são simples metáforas aplicadas à vida de qualquer pessoa.
    Beijos,
    António

  11. António, vim à procura de novas marcas, sempre tão ricas. Como ainda não há, aproveito para dizer-lhe que respondi à sua pergunta lá no meu lugar.

    Obrigada. Um abraço.

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