Quando as palavras respiram.


Às vezes não temos palavras para dizer o que queremos, titubeamos sílabas soltas, entremeadas com silêncios ocos. Às vezes ouvimos algures no fundo do coração os ecos frouxos de uma voz interior a ciciar palavras de luta. Às vezes instala-se em nós a desordem agitada dos dias, como se o mesmo vento que impele o mar contra as rochas, nos empurre contra as paredes. Às vezes desistimos, às vezes desfalecemos, às vezes ganhamos, outras perdemos. Contudo, nunca desistimos, nunca ganhamos e nunca perdemos sozinhos.

Alguns rezam, outros choram, outros riem, em ciclos de alternância incerta. É a vida. Está nas mãos de cada um mudar a sua vida, com maior ou menor esforço, contudo às vezes temos de conversar com amigos nos quais depositamos uma confiança absoluta, que sabemos que nos escutam sem pedir nada em troca, mesmo sabendo que esses amigos já sabem tudo o que temos para lhes dizer. Às vezes temos de ser humildes, corajosos até para agradecer.

Há uns anos escrevi esta história, porque as palavras respiram e dão alento. Hoje tive lhe acrescentar umas linhas.

“Boa noite, escrevo-Te aqui da gaveta mais doce do meu coração, onde uma pequena réstia da Tua luz me mantém à tona das águas revoltas. Tenho tanto para Te agradecer que nem sei como fazê-lo. Agradeço-Te as lágrimas onde a Tua luz perpassa, a paz, o silêncio branco das paredes. Agradeço-Te todos os momentos em que Te pedi aquelas coisas simples que contam na vida de um homem e que por razões que só Tu sabes não tive e não tenho. Uma bola a rolar em direcção a um filho, o riso de ambos a ecoar nas árvores de um parque, aqueles minutos de cumplicidade e ternura quando um pai ensina um filho a andar de bicicleta. Agradeço-Te aquele papel estranho da vida. Pai-telefone. E o outro, o de pai. Tu sabes que não basta querer ser bom pai, é preciso saber e é preciso poder sê-lo. E pode-se sê-lo de muitas maneiras. No céu e na terra. A Ti que és Pai, eu quero agradecer os pais que tive e, também, a mãe que o meu filho tem.

Acredito que um dia a Tua luz se derrame qual sol brilhante sobre todos nós, os que estamos cá deste lado. Sabes, na minha simples ingenuidade de mortal, acho que nunca soube falar Contigo, talvez porque não sei pedir nada. Nunca tive jeito para pedir nada para mim. Eu sei que Tu me ouves sempre, tal como fazes com toda a gente. Talvez eu não Te tenha sabido escutar ao longo dos anos. Em vagas sucessivas o mar levou tudo, ou melhor quase tudo. O amor de um filho a um pai e o de um pai a um filho, nunca se afunda. Fraquezas de marinheiro. Não é fácil manusear a bússola que dás a cada homem quando nasce. O norte fica algures no céu, tal como o sul. Não interessa onde. Está lá tal como Tu estás aqui. Tu és o norte e o sul. O este e o oeste. És o meu ponto cardial.

Agradeço-Te por tudo, porque faz tudo parte da vida. Pelas cores do arco-íris que me deste para eu ir pintando os dias, pelos dias em que as soube usar para pintar telas de paz, pelos dias em que as usei ao acaso, insensatamente, pintando telas opacas. Agradeço-Te pelo tempo, em que lutei e tentei. Agradeço-Te os raros dias em que pintaste o céu com o riso do meu filho. Foram minutos que valem anos. Sei meu Deus que quem tem a última palavra és sempre Tu, porque comandas as duas únicas coisas que fazem andar o mundo. Os corações e o tempo.

Já me esquecia, de Te dizer que a minha fé é tão forte como as rochas onde o mar se desfaz lá em baixo, por isso Te suplico que todos os males que me afligem se tornem cinzas nesta fogueira da vida, que o sofrimento que me fustiga arda em labaredas e que ao apagar-se extinga também o ódio, a inveja, a perseguição e traga a paz. A toda a gente sem excepção.
Ámen!

P.S. Do fundo do coração quero somente pedir-Te mais uma coisa. Uma coisa muito simples para Ti, mas pelos vistos um mistério indecifrável para os homens. Não são minutos, horas ou até dias com o meu filho, isso são coisas dos homens, peço-Te apenas do fundo do coração, que lhe concedas o que mais lhe falta. A saúde.
Um abraço meu Deus. Obrigado.”

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4 respostas a Quando as palavras respiram.

  1. há caminhos onde as palavras respiram, que não são fáceis de caminhar

    os dias dos risos talvez sejam tão poucos, comparados com os da dor

    tanto norte, para andar

    comovente a sua oração!

    um abraço

    manuela

  2. Obrigado pelas suas palavras Manuela.Todos temos de trilhar os dias e os caminhos, estes são feitos para caminhar, tal como os dias são feitos para viver.
    Um abraço,
    António

  3. Uma prece doída e comovente, escrita com muita sensibilidade. E com muita luz por dentro.
    Gostei imenso. Bem haja, António.
    Um abraço

  4. Obrigado pelas suas palavras e por ter gostado Virgínia. As palavras têm essa capacidade de transmitir luz, apenas têm de se procurar escolher.
    Um abraço.
    António

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