Para que serve o arco-íris?


Arco-íris. Há uns anos, no silêncio cinzento de um céu carregado de nuvens a chorar, no meio do mar surgiu um arco-íris. Uma visão fantástica. Duas palavras que marcam unidas por um traço, uma linha, um laço. Eterno. Perguntei-me para que servia o arco-íris? As ondas do mar trouxeram-me a resposta. Perplexo, dissipei as minhas dúvidas.

Já colocaram a vós mesmos a pergunta que dá título a este post? Cada um de nós terá uma resposta única e singular. A minha é esta. Qual é a vossa?

 

    À janela do arco-íris…

A tarde vai longa, tal como o passeio à beira-mar. A espuma das ondas beija-me ternamente os pés, do mesmo modo que as pequenas gotas de chuva, dançando ao sabor de uma suave brisa, me acariciam o rosto. As pequenas ondas vão e vêm com um movimento pendular análogo ao dos sonhos. De súbito, algo me bateu num tornozelo. Olhei e no meio da espuma brilhava uma garrafa. Baixei-me e peguei-lhe. Trazia um papel dentro, com um laço muito original. Tirei-o e comecei a ler.

 “– Dizem que a felicidade é eterna. Deve ser. Eu sou feliz. Há oito anos que estou com o meu marido, os meus pais e a minha irmã. Somos uma família unida e feliz. Curiosa a vida. Passa por nós ou nós é que passamos por ela, sem nos apercebermos que é efémera. Lembro-me bem do início da minha. Com pouco mais de vinte anos, tive uma surpresa. Chegou sem avisar e instalou-se sem pedir licença. Esclerose em placas. Alternava semanas de hospital, com semanas de casa, com semanas de trabalho. A vida pregou-me duas grandes partidas. Eu com as forças que me restavam, escondidas algures na minha alma, assentei-lhe duas grandes vitórias. Lutei muito. A doença era por vezes, mais rápida que eu. Outras mais lenta. Em qualquer dos casos arrasadora. Qual salteador no meio do caminho, atacava por surtos, saqueando os movimentos mais um pouco e depois entrando em pousio, para voltar a atacar pela calada. Vezes sem conta. Por vezes estagnava meses e depois voltava com um novo ímpeto. Passava muitas tardes à espera de consulta. Das duas até às nove. Lembro-me que as consultas tinham duas partes. A minha e a tua. Às vezes a tua demorava mais tempo. Era uma espécie de conversas do género de pai para filho. O médico era uma excelente pessoa. Muito caro, mas bom homem. Assim como um pai em part-time, por alguns minutos. Um tempo curto mas precioso. Lembro-me de uma conversa que tiveste comigo, depois de ires levantar o meu ordenado pela primeira vez, na tesouraria das finanças. 

– Mas como é que pode ser? Uma consulta é quase um quarto do ordenado e às vezes são duas por mês.

 Respondi simplesmente:

 – A minha mãe ajuda sempre que pode.

Eu sei que houve muitos meses, em que tivemos duas conversas com o médico. Uma vez ele disse-me que só tinha outra doente como eu em termos de longevidade. Era um caso raro, mas Deus sabe o que faz e eu tinha uma missão para cumprir. Agradeço-Lhe sempre, pois cumpri a minha missão.

Lembro-me da última vez que fui a Fátima agradecer-lhe. Tinha sido internada, pelo meu sobrinho, que é um excelente médico e me acompanhou durante o internamento. Um dia a enfermeira-chefe, apanhou-te no corredor e chamou-te à parte para te dizer que eu iria partir nessa noite. Perto de mim, viste os meus olhos baços, aquela cor bem definida no meu rosto. Os familiares das minhas colegas de quarto quedaram em silêncio. Tu também. Sem dizer uma palavra, deste meia volta e tomaste o caminho de Fátima. A conversa com Deus decorreu na Capela do Silêncio. Longa. Quase três horas, pausadas por lágrimas e silêncios profundos. Estiveste quase sempre calado. Eu, ouvi tudo e recordei as conversas do género de pai para filho. Regressei de Fátima pelo mesmo meio. No teu coração. Uma semana depois a enfermeira-chefe disse qualquer coisa do género…a sua mãe tem tido uma recuperação espantosa. Tu agradeceste-lhe simplesmente os cuidados excelentes com que me tratavam. Eu sei que também agradeceste a Deus. Como sabes, Ele cuida dos seus frutos e só os colhe quando estão amadurecidos. Colheu-me passados quase dois anos. Temos-te acompanhado, nada temas. Estaremos sempre contigo. Até um dia.”

De repente a chuva engrossou. Tenho de me ir embora da praia. Enrolo a mensagem, volto a colocar-lhe o laço feito de estrelas-do-mar e guardo-a junto ao coração.

– Obrigado. Fica tranquila. Fico feliz por saber que tu, Olga Marília e o Pai estão de novo juntos. Amo-te Mãe. Sei que estás bem, pois continuas a sorrir e a abençoar-me aí da tua janela no centro do arco-íris. 

Um abraço especial, daqueles abraços coração com coração.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a Para que serve o arco-íris?

  1. manuela diz:

    uma janela tão especial, essa, no centro do arco-íris

    eu penso-o um caminho em curva, cheio de gotas de água, ou de lágrimas
    mas agora sei que também tem garrafas com mensagens de amor!

    à sua Mãe

    e um abraço para si, António
    depois de uma longa ausência

    • Obrigado pelas suas palavras sentidas Manuela. As gotas de água são lágrimas do céu e quase todos temos a convicção que os nossos entes queridos que já partiram é lá que moram. Tem razão, o arco-íris é também um caminho, que nos transporta muitas vezes aos sonhos.

      Um abraço para si Manuela, uma contadora de histórias profundas com o mar ao fundo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s