Palavras em movimento…

Há  palavras que têm um movimento de vaivém. Ambas têm significado para a maioria das pessoas, embora tenham importâncias diferentes para cada ser humano. Cito apenas três dessas palavras com essa propriedade particular; dinheiro, trabalho e amor. Na constatação desse movimento de vaivém a ordem das palavras é arbitrária. Existe contudo um substantivo abstracto sobre o qual, provavelmente, muita gente será levada a pensar que tem,  também, um movimento pendular de vaivém, mas não o tem de todo, exactamente por ser abstracto. Não se detecta com nenhum sentido. Não se cheira, não se ouve, não se vê. E a razão é simples, porque essa palavra traduz sempre uma coisa efémera. Saudade. Talvez esta palavra seja mesmo portuguesa, desconheço a sua origem, sei apenas que tem tradução em muito poucas línguas, uma das quais é a língua arménia.

Há uns anos escrevi uma história que termina num penedo que tem um farol com nome de substantivo abstracto. O farol situa-se na costa oeste e entrou em funcionamento em 1912. Espero que seja do vosso agrado.

Saudade…

Vagueio na noite ao sabor de um luar ténue, esbatido pela neblina que me afaga o rosto. Rasgo o caminho da saudade em passos rápidos. Esquadrinho o futuro guiado pela luz embaciada do farol. Procuro-te na praia, procuro-te na bruma. Existes. Já vi esses teus olhos profundos de abismo onde os meus se afogaram docemente. De dentro dos teus olhos saem perigos inimagináveis. Feitiços de sereia que enleiam, tolhendo-me o espírito, o coração e o corpo. Procuro as marcas dos teus passos indeléveis no caminho. Chego à praia e embrenho-me na bruma. A memória traz-me o odor da tua pele, do teu corpo, do cheiro dos teus cabelos dourados, tão rebeldes como tu. Paro à beira do mar e chamo por ti…Não obtenho resposta. Talvez as sereias durmam como os peixes, embaladas pelas ondas suaves do mar. Sabes, nunca percebi muito de sereias, nem mesmo depois de ser apanhado pelo teu canto inebriante. Não sei se alguma vez te disse que a tua voz maviosa transmite ondas de paz, como os murmúrios doces do mar nas maré vazia. Vagarosa, terna, um leve marulhar que invade as avenidas do meu corpo em direcção à alma. Só ela acalma as saudades, como um paliativo temporário cujo efeito passa depressa. Se eu soubesse qual é o remédio para essa doença que me consome por dentro, tomava-o de uma vez só. A saudade não tem cura, pois não? Não deve ter. Não faz mal. Em todo o caso, mantém acesa a língua de fogo que nos une. A chama impetuosa da vida, cada vez mais viva, mais forte, mais nossa. Só tua e só minha.

Durante muito tempo foste um sonho. Um sonho que nasceu ao invés de um ser humano. Nasceram primeiro as palavras, depois a tua voz, depois o teu rosto, os teus olhos e o teu corpo. Tu nasceste assim, da bruma dos dias. Despontaste das águas, vencendo as sombras que encobriam os caminhos ínvios do meu coração. A vida é estranha. Surpreende-nos sabes? Primeiro dá-nos a pureza das crianças, depois dá-nos a vontade de crescer rapidamente e, quando crescemos, vemos que perdemos tanta coisa boa da nossa infância e da nossa juventude. Castigos da vida. Há quem se esquive dos castigos, outros infelizmente esquivam-se de viver. Já não tenho forças para me esquivar. Nem de ti, nem da vida. Há que cumprir a vida, cumprir os sonhos. Os secretos, que são quase todos e os outros, os impossíveis. Eu não deixei de acreditar em sonhos impossíveis. Sortilégios da vida.

Talvez a vida seja feita de extremos. Connosco os extremos têm nome. Paixão. Êxtase. Saudade. Distância. Grito. Tempo. Cartas. Outra vez paixão, êxtase, novamente saudade, distância, grito, distância, tempo, cartas, paixão. Um ciclo que um dia havemos de quebrar. A tua voz é como a paixão. Ambas cheias de perigos. Contudo a tua voz não se apaga, ecoa na memória, as paixões como deves saber apagam-se. Ardem em chamas, primeiro ternas, depois agigantam-se em labaredas azuis encarniçadas subindo ao céu. De seguida num processo lento, desvanecem-se com a serenidade e a tranquilidade dos dias. A rotina é fatal. Distrai-nos e sem darmos conta destrói-nos, por dentro e por fora. Primeiro, amolece o coração, depois abrandece a alma, de seguida afrouxa o corpo. Fazer amor, por vezes, torna-se uma rotina programada. Quando a rotina descamba numa obrigação, morremos por dentro. Um dia hei-de morrer por fora. Por dentro jamais. Nunca te deixes morrer por dentro. Prometes?

Caminho à beira-mar. Ao longe dois ou três vultos. Pescadores noctívagos. De peixes claro. Eu não sei se sou um pescador da vida. Já fui um peixe, talvez até um barco ao sabor das marés da vida. Já fui. O passado morreu. Afundou-se nas gavetas obscuras do tempo. Num assomo de bravura, renasci das cinzas doutras paixões. Peguei no leme da vida e rumei à ilha fantástica. Nunca te disse o nome dessa ilha, pois não? Também não o sabia, por isso nunca o pude dizer. Agora já sei o nome. Queres saber? Não, não estou a fazer nenhum mistério. É uma ilha tão misteriosa como tu. Conhece-la? Não? Ainda bem. Assim podemos ser dois a descobri-la. Se tu quiseres claro. É só uma questão de traçar a rota, enfunar as velas do coração e aproveitar os ventos quentes que nos aquecem a alma. Tempestades hão-de vir. Tempos de vagas alterosas, de ventos contrários até. Entremeados por bonanças, pela serenidade das calmarias. Pelos momentos únicos e irrepetíveis da paz que irradia dos teus olhos de abismo, do calor do teu corpo, do ardor do teu ventre. De ti sereia.

Subo as escadas da esplanada. Saio da praia e embrenho-me mais fundo ainda na madrugada. A luz do farol num ritmo cadenciado conduz-me pela marginal acima. Os meus passos desaguam no caminho de madeira, por cima dos penhascos. A madeira range, mas não cede sob o peso do meu corpo, tal como eu não cedo sob o peso do passado. Progrido lentamente na neblina, a maresia entra-me na pele, irrigando o meu corpo de um sangue rejuvenescido, rubro como o meu coração. O meu corpo pára no miradouro, a minha mente não pára. Percorre o teu rosto, o teu sorriso alvo, os teus lábios, o teu pescoço, as colinas do teu peito, entrando em ti como a aurora entra na noite escura até ser dia, num orgasmo cósmico.

De súbito a lua triunfa sobre a bruma, abrindo-se um rio de prata no mar que desagua a lamúria terna das ondas lá em baixo. A luz do farol cruza o céu salvando os homens perdidos no mar, tal como a luz que irradia dos teus olhos me salva dos dias pardos e das noites brancas. Saio do trilho de madeira, ando mais um pouco e chego ao farol. Estaco a ver as lanternas semeadas pelos homens no mar. A lua beija ternamente o mar e no azul-prata, descubro os contornos do teu rosto. Tapo os ouvidos com as mãos para não ouvir o teu cantar de sereia. Em vão. Esqueço-me de um pormenor. Deus está nos pormenores sabes? Um detalhe. Um local único. Exactamente este, onde o farol domina a noite. Tem nome sabes? Um nome de padecimento. Penedo da Saudade.

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A estação que nunca deve fechar.

O comboio deixou de apitar na Linha do Tua e em muitas outras linhas deste país. Já não há passageiros nas estações. Na Linha da Vida de qualquer leitor ou leitora, o comboio pára por vezes também. Uns dirão que a razão é a mesma, não há passageiros. Pelas mais variadas razões, uns porque partem rumo ao céu, dos que por cá ficam, uns rumam ao desconhecido, outros a lado nenhum. Outros mais conhecedores dos caminhos de ferro, poderão tentar sugerir outra razão. O descarrilamento do comboio da vida. Contudo, na Linha da Vida ao contrário das linhas abandonadas, há sempre uma estação que nunca fecha e tem um nome que nunca devemos esquecer.  Esperança em dias melhores.

Tal como as palavras também há sons que marcam. Deixo-vos aqui uma pequena história, que escrevi há uns anos, intitulada:

O som da noite…

As águas revoltas batiam furiosamente nas rochas. Os salpicos de espuma penteavam as ondas enraivecidas pela nortada. No meio daquele turbilhão imenso espreitavam espessos remoinhos de areia, cavalgando as ondas num galope louco, desvanecendo-se num último estertor à medida que engrossavam o lado sul da praia, tapando apressadamente as raras pedras negras que impávidas como estátuas, espreitavam os raios ténues raios do sol invernal.

De súbito um grito de uma gaivota ressoou no ar. Uns metros à sua direita, uma gaivota  parecia fitá-lo bem dentro dos olhos. Os primeiros beijos da chuva deslizaram-lhe suavemente pela cara rude. Na tez, a pele seca, nas mãos, os nós dos dedos deformados pelas agruras do tempo e da vida. No olhar, a neblina da angústia. Há muito que o comboio da vida parara numa estação qualquer, sem nome, sem cor, sem luz. Vazia, estática, silenciosa. Há estações assim. Fantasmas. Habitadas apenas pelas sombras, as do passado e as do presente. Para o comboio voltar a partir, não basta o apito agudo da consciência, é preciso também alimentar a caldeira. Dar-lhe fogo, luz, talvez até repor o coração a crepitar, alimentando as brasas que sobram depois de uma paixão, com o sopro ténue de um sorriso singular, de uma mão que desvia o cabelo dos olhos, descobrindo novamente a luz da vida.

A tempestade deixara na praia uma camada de espuma. O vento forte levantava-a em grandes flocos depositando-a na marginal. Já quase que não se via o alcatrão, apenas um tapete acastanhado, sujo e baço. Pareciam flocos de neve a voar. Na vida inteira apenas vira uma vez nevar na praia. Nesse dia o frio branco desceu à terra, durante umas cinco horas ininterruptas. Os barcos vestiram-se de um branco imaculado. Os homens vestiram-se de admiração. Nunca tinham visto nada assim. Para os garotos da vila, foi muito melhor que um mergulho num dia de verão. A praça central, viu, pela primeira e única vez, desenrolar-se uma batalha campal. As bolas de neve faziam as delícias dos miúdos e dos graúdos. Os pescadores assistiam com um olhar incrédulo e ao mesmo tempo deslumbrado. Mais um dia sem poderem ir para a faina ganhar o pão. Mais um rombo nos seus magros rendimentos. Naquela tarde, naufragara um barco umas milhas para sul. O mar na sua avidez desumana, tragara duas vidas, outras tantas foram salvas por um navio que captou os pedidos de socorro.

Nunca percebeu porque Deus fez o mar assim, rebelde e terno, selvagem e meigo, salgado e doce, tempestuoso e calmo, com um som assustador e um marulhar sereno. Deus deve saber o que faz, ao contrário dos homens, pensou com os seus botões. Estes se soubessem o que fazem, já teriam acabado com a fome e com a guerra. Podiam fazer como ele. Tentar aprender com os erros. Isso já seria muito. Não sabia se bastava para ingressar de novo no comboio da vida. Tão pouco isso lhe importava. Nesse dia tinha muito mais em que pensar.

Anoiteceu rapidamente, a vila ficava linda com as luzes. Olhou o mar pela última vez, deu meia volta e regressou a casa. Não jantou, não tinha fome, não tinha sede, não tinha sono. Tinha tudo e não tinha nada. Abriu a gaveta da cómoda, retirou uma pequena caixa, encheu um copo com água e tomou meia dúzia de soporíferos. Depois foi ao outro quarto, buscar uma caixa linda e um sapato. Tamanho trinta e quatro. Colocou tudo carinhosamente  perto da chaminé aos pés d’Ele, enquanto o  relógio da sala assinalava as dezanove e quarenta e cinco de um dia qualquer…

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As primeiras palavras.

No final de cada ano todos devemos, por norma, aproveitar para realizar um balanço do que fizemos bem e, também, do que não devíamos ter feito. Só assim podemos traçar melhor os objectivos para o ano seguinte e procurar ser melhores seres humanos a cada ano que passa.

Neste blogue a natureza vai andar muitas vezes, lado a lado com os personagens das histórias que nascem neste teclado. Hoje trago-vos aqui uma história que por acaso foi escrita exactamente no dia a que a mesma se refere, tendo sido também a primeira que escrevi na vida. Deixo-vos com:

O primeiro dia…

Anoitecia suavemente nesse Setembro. Guiado pelo marulhar das ondas, mergulhou no silêncio da noite. Chegado à praia, parou. O mar descarnava a praia, retirando em cada onda, grão a grão, a roupagem que tapava as rochas, despindo-as para as voltar a possuir na próxima preia-mar.

Sentia-se como a praia, a descarnar por fora. Estava ali e não estava. A mente sentou-se num pequeno fragmento de azul transfigurado em prata que desaguava na Lua, grande, redonda, prenhe de sonhos. Estava longe dali. O seu corpo tomou lugar no muro da marginal.

Uma luz brilhou na espuma de uma onda. Era um sargo reluzente, a debater-se, apanhado numa rede fatal, quase tão fatal como aquelas com que a vida o presenteara até ali. Surpresas da vida. Da dos peixes e da dos homens. Também ele se sentira aferrolhado pelas redes que a vida lhe armara. Derrotas. Vitórias. Saldo final. Vivo. Saudável. Lhano. Forte. Não era uma questão de força de vontade. Era, isso sim, de vontade de fazer força. E isso ele tinha. Objectivo também. Viver.

De repente o mar acalmou. Transfigurou-se. Era agora um rio calmo e tranquilo. Assim ficou ele, sereno e quieto como o mar, olhando o rio de prata que desaguava no ventre da Lua. Não tinha memória de um momento assim. Verdadeiramente, a sua memória tinha entrado em blackout. Senti-a apagar-se, ganhar aquela cor enevoada e esbranquiçada da bruma.

Ficou numa espécie de transe. Fechou os olhos e sem saber porquê, uma a uma, as lágrimas começaram a soltar-se. Primeiro numa cadência suave, depois deslizando pela face sem parar, percorrendo um longo e silencioso caminho até ao coração. Não, não eram lágrimas de tristeza e sofrimento. Pela primeira vez na vida eram lágrimas de alegria, gratidão e paz. Uma paz imensa e terna, que ele julgou irrepetível e única. Voltou a abrir os olhos e viu uma gaivota cruzando a noite, numa valsa voluptuosa sob a benção da Lua.

Deu uns passos e num último bem-haja, agradeceu aquele momento. Fez meia volta e regressou a casa. Deitou-se e adormeceu profundamente. Dormiu umas catorze horas. Nunca tinha dormido tanto tempo.

Como todos os seres humanos, levara muitos anos a solidificar as suas crenças. Cometera imprudências, fizera tentativas, tomara decisões, às vezes erradas, outras certas. Aprendera, desse modo, a dobar os trilhos emaranhados da vida. Não era, certamente, uma pequena pérola, não tinha tido tempo para essa metamorfose. Os grãos de areia numa ostra levam muito tempo a transformar-se e nem todos se tornam pérolas, mas todos tem essa oportunidade, se quiserem.  Neste processo de amadurecimento, a vida não pára. Nós é que queremos, às vezes, que ela pare e fique assim quieta, sem mexer, eterna. É nessas horas que experimentamos clarões de felicidade. Mas a vida nem sempre acata os nossos pedidos. Todas as semanas começam à segunda-feira. A vida desenrola-se semana, após semana. A sua recomeçou, também a uma segunda-feira. E mudou, para melhor. Novas oportunidades, novas competências, novos desafios, novas amizades. Algumas derrotas. Vitórias também.

O reinício ocorreu num final de tarde. Desceu à praia, num tom adocicado e leve as ondas e o vento libertavam a espuma em gomos leves, uns mais pequenos, outros maiores, sempre com a certeza que seriam desfeitos e refeitos novamente, tal como a roda da vida, fazendo e desfazendo sonhos. Reparou em duas gaivotas, a dançar rasando as águas. Devagar, sentaram-se no azul-prata. Ele num movimento reflexo consciente imitou-as. Sentou-se, bem ao largo, no seu pedaço íntimo e secreto de azul. Uma gaivota levantou vôo em silêncio dirigindo-se para norte. A outra piou, elevou-se no ar e mergulhou seguindo as leis da vida. O Sol tomou o rumo da gaivota e num vôo deslumbrante, pousou suavemente no mar adormecendo em paz.

Ele, pela segunda vez na vida, chorou lágrimas de alegria, gratidão e paz. Ergueu-se. Apressou o passo. Chegou a casa, deitou-se e aconchegado pela luz doce dos sonhos, adormeceu. Outras catorze horas. No dia seguinte, levantou-se, fechou as portas do coração e mergulhou olimpicamente na vida. Era o primeiro dia de um novo ano.

O dia mundial da Paz.

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Marcas indeléveis.

Há vidas solitárias, contudo nem todas nos deixam a pensar como esta aqui, ou nos marcam como esta aqui.

Neste blogue raramente encontrarão textos de outros autores, contudo há uns anos li um texto de um dos mais importantes consultores de empresas do mundo, que me obrigou a   fazer uma coisa, que nos dias rápidos de hoje fazemos poucas vezes. Parar para pensar.

Tomei a liberdade de traduzir o texto, de lhe acrescentar mais umas palavras e de lhe dar um título, tão simples como o deste blogue. Publiquei-o há uns anos na net, mas mantém-se actual, pelo facto de  eu, como muitos de nós, nos esquecermos com facilidade que a vida é simples. Infelizmente a regra é sermos peritos em tornar as coisas…complicadas.

Desejos de um homem igual a tantos outros…

Desejo que nesta época de festas em que se celebra o aniversário do Homem mais importante de todos os tempos, as vossas celebrações, sejam elas quais forem, pelo menos nesta altura vos tragam paz verdadeira.

Desejo que possam estar nesta quadra com todos os entes queridos que amam, e que eles possam voltar a contar-vos e reviver acontecimentos significativos e histórias importantes nas vossas vidas, sem reviverem velhas animosidades.

Desejo que possam deliciar-se com gosto e prazer, mas que se mantenham sóbrios…e não ganhem nem uma grama a mais.

Desejo que os vossos planos de vida possam prosseguir como planeado e, se por alguma razão forem forçados a fazer alterações, que estas vos possam trazer umas boas gargalhadas e ainda melhores resultados.

Desejo que possam experienciar e apreciar o cintilar das estrelas ao luar e o olhar sorridente de uma criança.

Desejo que recebam alguns presentes de valor e de alegria, e que providenciem também prazer e gratidão iguais a todos aqueles a quem estão a pensar dar presentes.

Que a vossa noite de festa, seja afectuosa e suave, e se permitir um passeio à volta das vossas casas, respirem profundamente uma lufada de ar fresco e se sintam verdadeiramente enriquecidos e sendo parte da humanidade.

Desejo que aqueles que vocês amam estejam em segurança. Que qualquer doença seja breve e ligeira.

Desejo que possam sorrir relembrando boas memórias que alguém que já partiu vos deixou, e que vos confiou uma marca ou presente indelével na vossa vida.

Desejo que possam olhar à vossa volta com compreensão. Que possam apreciar cada momento, de modo a que qualquer dia, quando olharem para trás, tenham o conforto de saberem que desfrutaram dele da melhor maneira.

Desejo que se deliciem com uma bola a saltar nas mãos de uma criança, com o passear do vosso cão, se o tiverem, com a preparação da ceia, com uma conversa com a família, com um filme, com ver fotos vossas e de outros familiares e amigos.

Desejo que possam ver o céu e perceberem que é o mesmo céu, as mesmas estrelas brilhantes, a mesma escuridão bela que os vossos antepassados viam, apesar das guerras e perturbações por que o mundo passa.

Desejo que os vossos presentes verdadeiros sejam eternos e não efémeros, presentes de amor, de amizade, de saúde, de interesses irresistíveis, de trabalho produtivo e de atitude positiva.

Desejo que consigam ver a esperança na escuridão, que encontrem conforto no meio do barulho e que ganhem sabedoria no meio do tumulto.

Desejo que não escolham dar um salto desesperado na escuridão, mas em vez disso, tomem um pensamento profundo na luz interior que todos temos, e isto, desejo-o, em especial, para todos aqueles, que pelas mais variadas razões da vida, vão passar o Natal sozinhos.

Já agora desejo que sejam felizes…e que tenham um excelente 2011.

Obs. Baseado num texto de Alan Weiss.

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Quatro Estações – Parte I – Inverno.

Tal como durante o ano, na vida de um país e na das pessoas que nele habitam, existem também quatro estações. Infelizmente sobre o nosso país caiu um Inverno que tudo indica vai ser muito longo e frio. Contudo cada dia pode ser construído à nossa medida por cada um de nós, consoante a coragem de cada um. Deixo-vos aqui uma história escrita no final de 2008 sobre o:

Inverno

Inverno. Do lado de lá das vidraças o branco espraia-se pela serra da Lousã. Num suave bailado os flocos de neve, flutuam no seu percurso indolente do céu à terra sob um vento gélido e seco que trespassa a aldeia, as encostas de soutos, de carvalhos e o meu coração. Dizem que o vento e o tempo é que fazem andar o mundo. Não concordo, pois como deves saber, quem tem a última palavra é sempre Deus, porque é Ele que comanda as duas únicas coisas que fazem avançar o mundo. Os corações e o tempo. Ambos movem o mundo, num movimento perpétuo apenas interrompido quando nas encruzilhadas da vida, a brisa leve dos sonhos se desfaz, às vezes lentamente, como a neve num dia de sol, outras, bruscamente como uma saraivada destruindo uma vinha promissora.

Não sei se é o tempo que gela os corações, ou se são os corações que param o tempo. Para o caso não interessa. O tempo gelou no coração e o coração parou no tempo. Há corações assim. Param. Ficam estáticos, petrificados pelos vulcões que por vezes, rebentam na vida, sem qualquer aviso. Outros hibernam, num processo lento, perdendo toda a esperança, que é o sangue de qualquer um de nós. É essa a seiva da vida, que assegura a nossa capacidade infinita de sonhar com dias onde o teu riso e o meu se confundam num orgasmo de paz.

O frio entra de mansinho pelas paredes cor de neve e instala-se ocupando o espaço, a pele e os ossos. Tudo está um gelo. A casa, o céu, a serra, os pássaros, os veados, a dor, o silêncio, o coração. Eu. tu. A vida. Lá fora o ribeiro que desce a montanha gelou igualmente, irrompe contudo no ar a nobreza dos castanheiros vestidos de branco, alastra também a dignidade dos medronheiros, que submissos  à intempérie têm a certeza de que vão dar fruto, tal como eu tenho a certeza de realizar os meus sonhos.

Talvez um dia te leve aquele castelo mágico de Arouce, onde dormem na penumbra dos séculos os tesouros de uma princesa sereia como tu. Talvez sejas tu mesma o tesouro. É difícil perceber quando temos um grande tesouro diante de nós, sabes porquê? Porque nem os homens, nem as mulheres, acreditam em tesouros. O meu mundo não é como o dos outros, por isso eu acredito. Piamente. Tal como acredito nesses olhos aos quais dei os meus, como o céu te deu as estrelas para tomares conta delas nas noites de lua cheia. Dizem que os olhos são o espelho da alma. Não creio nisso. São o espelho do coração. E não enganam nunca! Tal como a bruma desta serra, os teus olhos de abismo são misteriosos, mas um olhar mais atento desvenda todos os seus enigmas, como o sol sorrindo por entre a bruma revela o céu.

O crepitar da lareira chama-me num tom desesperado tal como o teu coração chama o meu. As chamas azuladas cintilam como os teus olhos num dia de paz, irradiando raios de luz que reacendem a esperança. A mesma esperança que permite a cada um de nós recomeçar perante qualquer fracasso na vida, que permite ter tempo para amar, ter tempo para ser feliz e ter tempo para viver cada dia e cada hora como um presente. É por isso que te digo, todos podemos ser como a serra, que renasce em todas as estações, todos pudemos mudar-nos a nós mesmos e mudarmos para melhor. O mister da vida ensinou-me que não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem. É por isso que os chapins-reais e os rouxinóis que habitam esta serra são felizes, pois têm a coragem de ser livres.

Há dias que são construídos à medida, têm as horas que nós quisermos. Dias raros mas existem. No Inverno há dias assim. Como sabes o Inverno é composto de rituais. A neve, a chuva a bater no rosto, o nevoeiro, a lareira, as castanhas, o vinho novo, a missa do Galo e o espírito de união das pessoas que não desistem umas das outras, pessoas que se ligam por laços de ternura e amor invioláveis e que lutam umas pelas outras. Talvez não saibas mas Natal é quando nós somos o melhor do mundo para alguém. É esse o espírito do Natal.

É por isso que o Natal é quando um homem quiser…até mesmo num dia de Inverno.

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Entre o ontem e o amanhã…

As palavras são como as ondas do mar, tem os mesmos ritmos da vida. Esta decorre entre o ontem e o amanhã, num ritmo pessoal e intransmissível. Contudo também as palavras impõem um ritmo próprio às histórias, embalando quem as lê numa cadência que, muitas vezes deixa percepcionar, ou pelo menos dá umas pistas sobre o seu final.

Neste blogue nem sempre o ritmo das palavras desemboca no final que o leitor atento almeja. E isto acontece por uma razão simples, porque há palavras que marcam, como esta história que publiquei há uns anos na internet comprova.

A tecla.

No vagar dos dias chegou Outubro e com ele as primeiras gotas de chuva. A natureza qual amor de Verão, preparava-se para hibernar, seguindo os tons de Vivaldi. O chão da estrada, ganhava os mesmos tons de vermelho do pôr-do-sol, agora mais afectuosos e maviosos. As folhas dançavam num tango desalinhado. Às vezes parecia que o carro ora deslizava a gozar a beleza da estrada, ora tentava apressadamente alinhar aquele rodopio e organizá-lo como se fosse uma valsa de Strauss.

Serpenteando nas curvas da vida, conheceu alguém. Conhecer, é uma força de expressão, pois as pessoas são como livros numa estante. Fechados têm apenas um nome na lombada. Abertos falam por si. Teve um primeiro contacto. Depois outro. Falaram e voltaram a falar. Ela era bem disposta, trajando as palavras com um humor fulminante. Dia após dia, essa mulher espoliava-lhe as defesas que tinha montado. Uma a uma, ruíam as muralhas, entretanto erguidas, contra guerras de outras mulheres, que lhe tinham moldado o coração com uma geometria obtusa. O tempo da conquista fácil e da aritmética básica de uma vida trivial, somando mulheres, tinha passado.

Lentamente, foi percebendo nela crenças, atitudes, valores, que simplesmente já não acreditava existirem numa mulher. Hoje os dias eram de engate e desengate rápido. Dias de plástico. Tudo o que era metal ia morrendo aos poucos e ressuscitava agora sob a forma de artefactos de plástico. Numa cadência acelerada e mortífera, das velhas marmitas aos tuperwares, dos bons sabores da comida caseira, à comida rápida e insípida. As relações entre homens e mulheres eram agora de plástico, frágeis, amorfas. Insubmisso, não perfilhava os tempos.

Paulatinamente, de mansinho, instalou-se primeiro a autenticidade das palavras, depois a confiança, o amor-próprio, a humildade, o respeito. A vida retomou os tons de vermelho do pôr-do-sol, afectuosos e ternos.

Encontraram-se algumas vezes. Acasos circunstanciais e fugazes, até que chegou o tempo do primeiro frente a frente. Uma grande entrevista, com troca constante de papéis entre os intervenientes. Ponteada com sorrisos e gargalhadas. Não, não foi uma batalha. Essas batalhas entre sexos já não tinham sentido para eles. Não sentiu naquele primeiro encontro, qualquer sombra de plástico. Ambos tinham sido somente eles próprios. Autêntica ela. Autêntico ele. Genuínos e fidedignos. Ali não existiam resíduos para reciclar. As únicas coisas passíveis de reciclagem, os divórcios de ambos, já tinham sido recicladas, trituradas e reutilizadas. Era a política dos 3 R’s concretizada na vida real.

Novembro chegou em passo de corrida. Um sábado. Foi ver o rio. O dia brilhava de alegria. Ele, inexplicavelmente, também. Agradeceu aquele novo dia e esperou a vida acontecer. Sentou-se no muro à beira da estrada. Deixou-se inebriar naquela imensidão do vale abraçando a água entre fragas imponentes. Um carro parou. Virou-se. Era ela. Acenou-lhe e viu abrir-se um sorriso celestial, gentil e infinito. Respirou paz. Ergueu-se e convidou-a a dar um passeio. O caminho, qual afluente, expirava nos braços do rio.

O Douro testemunhou o primeiro beijo, quente e voluptuoso. Um abraço forte e delicado ao mesmo tempo. Um abraço de paz. Uma boca sensual, beijos longos. Corpos espelhados no rio. O silêncio. Outras testemunhas, sem convite, assistiam. Só ele as viu. Duas águias-reais. Voltou a respirar concórdia. Viu raios de alegria no rosto dela. Sentiu-a feliz. Também ele experimentava um clarão de felicidade. Comungou da mesma alegria e da mesma paz. Almoçaram e despediram-se. A filha esperava a mãe, a mãe a filha. Era a vida a funcionar, numa regularidade imperturbável.

Com o passar dos dias, sem pedir licença, a saudade instalou-se, alimentada pela tranquilidade da voz que ouvia de quando em vez. Contudo, outra coisa começava a desbravar caminho nele. A geometria do coração estava de novo à prova. Paz celestial. Sentiu-se especial. Ela era rara e invulgar. Tão rara, como a neve no mês das vindimas. Devagar, também sem pedir permissão, a paixão foi matizando os dias com cores quentes. Contudo a verdade, era mais condizente com uma frase que tinha visto algures. Simples e realista. <<Apaixonamo-nos não pelas pessoas, mas pelo que as pessoas nos fazem sentir>>. E ele sentia-se bem. Bem consigo próprio, bem com os outros e acima de tudo bem com ela.

No fim de semana seguinte, foram tomar um café. A imensidão do vale, convidava a um passeio à beira-rio. Partiram em gargalhadas de azul, do céu. As pegadas polvilhando o caminho. O riso e a alegria, vindos do local mais fundo do coração de ambos, aspergindo o ar. Os olhos dela salpicando a alma dele de tons cor de mel. Os olhos dele impregnando os dela de alegria. O Douro e as águias-reais testemunhando tudo em aprovação solene. Estavam outra vez juntos, em orgasmos de paz. Caminharam de mão dada, atiraram pedras ao rio, trocaram beijos, cumplicidades e fragilidades. Sentiram-se bem nos braços um do outro. Caminhos da vida. Este parecia um caminho tranquilo, harmonioso. Lembrou a canção “Imagine” do Lennon.

Adormecia agora, cansado mas bem disposto. Acordava cheio de alegria e energia. Na fábrica perguntaram-lhe:

– O que é que se passa estás com muito melhor aspecto e sempre com boa disposição?

– É do Outono. O Outono facilita o renascimento.

Ninguém pareceu compreendê-lo e tão pouco lhe importava que o entendessem ou não.

Falaram, voltaram a falar e saíram para um fim de semana, cheio de promessas e vida. Não, não era um de fim de semana de plástico, daqueles em que um homem acrescenta mais uma mulher à sua conta-corrente e uma mulher adiciona mais um homem à sua fantasia. Ambos já não faziam dessas contas. Contas, só mesmo as do mês. Daquelas que se fazem dia após dia, quando o ordenado fica curto para tanto mês. Essas eram as únicas contas que ambos praticavam, numa rotina certa e mensal.

Tiveram um almoço de príncipes. Príncipes sem reino nem castelo, apenas príncipes da vida. Trocaram olhares cúmplices. Segredos. Navegaram nos braços um do outro, percorrendo oceanos de azul celeste. Imploravam-se um ao outro, roídos num desejo até então meio submerso. As mãos dele percorriam suavemente o corpo dela. Silêncios ofegantes. Outra paz. Corpos nus. Luz. Beijou-a longamente. A nuca, depois o pescoço. O céu. Desertos de prazer. Alva e bela como a neve do Marão. Uma Vénus de Milo. Resplandecente. Linda por dentro e por fora. Por dentro, ele já o tinha intuído. Por fora, descobria-o agora. Jantaram, amaram-se com o olhar, com as mãos dadas, com sorrisos, com histórias de vida. Era a vida a correr nos trilhos certos. Subiram ao quarto, enlaçaram-se em orgasmos de luz. A neve fez-se sol. Subiram ao céu. Arderam em labaredas de azul e desceram à terra, adormecendo sob a benção da lua.

A vida decorre entre o ontem e o amanhã. Nunca no passado e nunca no futuro. Um dia de cada vez. Lento. Demorado. Contudo, o tempo transfigura-se. Os minutos são horas. As horas são dias. E os dias sem a ver, eram noites. A claridade dos dias depende de um sorriso cúmplice. Ainda não tinha chegado o Inverno e de repente, um raio fulminante cruzou o céu da paixão. Ele desencadeou a tempestade. Um café, uma flor, uma palavra sem pensar. Um verbo trivial. Uma simples palavra, da qual já quase não sabia o significado, mas que traduzia simplesmente afecto e bem-querer. Uma hecatombe. Qual furacão irrompeu no meio da amizade. O abalo foi forte. Tão forte como aquela mulher. Desafiando as leis da física, mas de acordo com as ciências da vida, subitamente o sol fez-se neve. A memória dele, fez clique por breves segundos e relembrou-lhe uma verdade elementar que ele esquecera. São as mulheres que escolhem os homens. Exactamente assim. Tão simples quanto isso. O coração dele ganhou uma nova forma, estranha, quase portátil. Sentiu uma dor, levou a mão ao peito. Ardia. Quando olhou a mão, viu uma coisa estranha. Na palma da mão tinha decalcada a nova forma do seu coração. Uma tecla com três letras. Del. Ligou o MP3 e ouviram-se os primeiros acordes de Vivaldi.

Inverno.

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Horizonte.

Provavelmente já leram o poema “The Dash”  de Linda Ellis. O poema pode ser visto aqui e fala sobre uma linha que une dois pontos na vida de uma pessoa. O princípio e o fim. Cada um de nós conhece apenas o ponto de partida desta linha imaginária.

Há uns anos publiquei este texto na internet. Fala também sobre uma linha que me fascina não só a mim, como a muitos de nós.


“Quatro e quarenta e quatro. O som do silêncio pesa no quarto. Os pássaros, tal como os pinheiros, dormem na penumbra. Abro a janela e recebo o abraço l ongínquo e doce da lua. Estranho o vazio de onde se erguem vindos algures da memória dos dias, abraços fantasmas.

Olho o céu pejado de estrelas. Algures escondida deve estar a minha estrela guia. Algumas estrelas cintilam, outras cadentes somem-se nas trevas que engolem a noite. Mergulho no céu à procura do futuro. Percorro a Via Láctea na amplidão do pensamento. Ágil, palmilho os anéis de Saturno, perco-me em círculos. Procuro-te. Em vão. Fugiste nas asas do tempo, num vôo que não permitia passageiros. Só teu. Pego na borracha da memória e tento apagar-te. Nunca te disse que sabia usar uma borracha. Aprende-se simplesmente sabes. Aprende-se como se aprende a andar, tenta-se, cai-se, volta-se a tentar, volta-se a cair até que se consegue dar uns passos. Depois é só manter o equilíbrio. Simples não é?

Subitamente ecoa no silêncio da madrugada o arrulhar das rolas. Acordaram também, nunca tinha acordado antes delas. Ao longe o mar beija a praia ternamente, ronronando-lhe segredos dos amores de Verão. Os candeeiros da rua, num ritmo temporizado, ora afagam ora desvanecem as sombras. A cadência da luz que irradiam, nunca é como a da vida. Esta é irregular, intermitente. Por vezes, luz, penumbra, escuridão. Dias, noites, madrugadas. Madrugadas, noites, novamente dias. Rotinas sem duração certa. Morrem todas na inércia dos dias. Sim, as rotinas são feitas para morrer. Se elas não morrerem, matam-nos a nós. É isso não é?

Tomo um duche tépido, visto-me à pressa, abro a porta e embrenho-me nos primeiros raios fugazes que transportam a luz do dia, esfrego os olhos e em passos rápidos perscruto a aurora. Chego à praia ao mesmo tempo que o dia. Abro a alma de par em par e grito:

– Bom dia mar.

A brisa suave leva ao colo o meu grito por cima das ondas. Um bando de gaivotas responde-me em uníssono. Descalço-me e dou os primeiros passos à beira-mar. Aquela hora a praia é só minha. Aproprio-me dela, como se fosse uma manhã de bruma. Progrido lentamente na areia, enterro os pés, o passado, os sonhos gastos e repetidos. Vou andando e cada vez me enterro mais, cada vez mais fundo. A areia fina deu lugar à areia grossa, tal como à infância se sucedem os dias de vida dura. Desperto os sentidos com o primeiro beijo do mar nos meus tornozelos. Doce, terno, indelével.

O sal embrenha-se na pele, a brisa embrenha-se primeiro nos pulmões, depois lentamente espraia-se ao longo da minha alma. Extasiado, esquadrinho o infinito à procura de tudo e de nada. Olho sem ver. Vejo sem olhar. Arrebatado pelo pensamento que voa mais rápido que o olhar, deixo-me ir embalado pelas ondas. Caminho na areia, caminho nas rochas, caminho nas ondas. Não sou capaz de parar. Já não existo. Já não sou eu. A razão foi-se numa onda. Morreu na praia. Só o meu espírito vive e caminha, imponderável, desoprimido, alegre e subtilmente rumo aos sonhos que hei-de realizar. Rumo à linha que hei-de cruzar um dia. A única que conta na vida de um homem. A linha do horizonte…

Parece simples, não parece?

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